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domingo, 9 de setembro de 2012

A construção da identidade brasileira


Maxine L. Margolis

 

No Brasil, a identidade nacional brasileira é simplesmente presumida; é algo abstrato que raramente é expresso, já que, em geral, as pessoas ao redor no dia-a-dia são brasileiras. “O brasileiro aprende o que é o Brasil só depois de vir aos Estados Unidos” – é o que alegam dois pesquisadores.

A maioria traz consigo imagens culturais regionais que só são substituídas por símbolos nacionais – a bandeira brasileira, samba, capoeira, comemorações do dia sete de setembro – ao chegarem aos Estados Unidos (De Lourenço & McDonnell, 2004). Ou, como me contou uma  imigrante, ela nunca tinha pensado na questão de ser brasileira até ir a um concerto de Milton Nascimento em Boston, onde se tornou ciente de sua nacionalidade por causa do entusiasmo de seus conterrâneos que estavam alegremente aplaudindo o colega mineiro.

Tipicamente, no Brasil, o ponto de referência de um indivíduo não é sua nacionalidade, e sim sua cidade, o estado onde mora ou sua classe econômica. Porém, mesmo que a identidade nacional no próprio país seja algo subentendido e pouco notado, o brasileiro no exterior é classificado como um estrangeiro de uma terra distante e exótica. Assim, quando o imigrante brasileiro vai a uma churrascaria em Nova Iorque ou bebe uma caipirinha num bar brasileiro em Lisboa, ou quando o brasileiro-japonês come uma feijoada em Nagoya, Japão, não está simplesmente saindo para comer [e beber], “está saindo para comer e beber o Brasil – para participar de uma reafirmação consciente de sua identidade como brasileiro deslocado” (Linger, 2001, p. 75).

Então, o que abrange a construção da identidade étnica em comunidades imigrantes em geral? Frederick Barth (1998, p. 6) definiu a etnicidade como uma forma de “organização social” – como uma maneira de organizar e classificar diferenças entre grupos sociais. Os limites que marcam tais diferenças são atribuídos ao grupo de dentro – por mem-bros do próprio grupo – como por outros de fora. De acordo com Barth, não é a cultura compartilhada que define o grupo, e sim as diferenças entre esse grupo e outros. De forma semelhante, Roberto Cardoso de Oliveira descreve a identidade étnica como “uma afirmação de nós contra os outros [que] provém de oposição [e] é afirmada ao negar o outro...”.

Por isso, a identidade étnica é sempre relativa e depende do contexto. “Não pode ser definida em termos absolutos e sim em relação a um sistema de identidades étnicas” (Cardoso de Oliveira, 1976, p. 8-9). Essa observação nos ajuda a entender a construção da identidade entre os brasileiros-fora-do-Brasil, já que sua identidade é construída, em parte, por algo que chamo de uma perspectiva “não somos como eles” – que notei primeiro entre os brasileiros na cidade de Nova Iorque e que foi observado por pesquisadores estudando populações brasileiras em Boston, no sul da Flórida e em Los Angeles (Margolis, 1994; Sales, 1999; Fleischer, 2001; Marcus, 2004; Resende, 2002; Beserra, 2005). “Não somos como eles” é uma frase que se refere tanto à classe econômica quanto à etnicidade, isto é, “o outro” pode ser outro brasileiro de classe social mais baixa ou com menos educação ou, o que é mais comum, pode ser outro grupo de imigrante, mais comumente o hispânico, isto é, o falante de espanhol ou descendente de falantes de espanhol, um termo que não é usado no Brasil.

Primeiro, gostaria de esclarecer o que quero dizer com “o outro” em termos de classe econômica. Durante minha pesquisa no começo da década de 1990 com os imigrantes brasileiros na cidade de Nova Iorque, ouvi muitas vezes que os brasileiros que moravam lá eram de “classe baixa”, “sem educação”, “mal-criados”, ou “pobres representantes da sociedade brasileira”. Mas quando eu pedia mais detalhes – Quem são essas pessoas? Onde moram? – as respostas eram sempre indefinidas. A resposta típica era, “Bem, eu não conheço nenhum deles pessoalmente”, o que queria dizer, é claro, “eu não me associaria com tais pessoas”. “Só sei que estão aqui porque ouço português mal falado” na rua ou no metrô (Margolis, 1994). A divisão entre “nós” e “eles” foi observada na comunidade brasileira em Boston, “eles” sendo “camponeses”, “os ignorantes” e “mineiros”, como na declaração, “A maioria dos brasileiros [em Boston] é ignorante e vem do interior” (Martes, 1998). Uma mentalidade semelhante de “nós contra eles” foi relatada entre os brasileiros no sul da Flórida. Lá, a dicotomia é entre os brasileiros no condado de Broward (principalmente Pompano Beach) e os brasileiros no condado de Dade (Miami) – os de Dade alegam que os de Broward são mais pobres e têm menos educação (Resende, 2002).

Tais esforços para impor limites sociais foram interpretados como uma tentativa pelos imigrantes brasileiros de se reposicionarem dentro da hierarquia social local (Martes, 1998; 2000). Mesmo que todos sejam imigrantes, que muitos não tenham documentos e falem mal o inglês, e que a maioria tenha empregos de baixo nível que não exigem habilidades especiais, tais esforços ocultam essas semelhanças e procuram reproduzir as agudas distinções sociais da sociedade brasileira. Através da criação de marcadores de limite, o filho imigrante de uma família distinta de Minas Gerais que trabalha lavando pratos em Boston, ou a filha imigrante de uma família de classe média do Rio de Janeiro que trabalha como faxineira em Nova Iorque, ou o indivíduo com formação universitária que vem de São Paulo e que trabalha como cozinheiro em Miami podem se distinguir de um “outro” brasileiro um tanto indeterminado mas sem dúvida menos desejável. Essa linguagem também reflete a intensa preocupação com distinções de classe “lá” – no Brasil. Roberto da Matta disse que o Brasil é uma sociedade “que se preocupa com autoridade e hierarquia (...) [com] um lugar para tudo, e tudo em seu devido lugar” (Da Matta, 1991, pp. 140-141). A maioria dos brasileiros é muito atenta a diferenças de classe e rapidamente determina a distância social entre si e outros  conhecidos. Medidas de tal distância são aparência geral, incluindo roupa e a “certeza” da fala de uma pessoa. O grau em que o vocabulário e a gramática de um indivíduo é considerado educado é usado como medida de nível de educação e, portanto, posição social (Margolis, Bezerra & Fox, 2001).

A classe social é uma questão importante mas problemática na construção da identidade imigrante brasileira por mais uma razão. Dado que o norte-americano não diferencia os imigrantes brasileiros segundo a classe social, o nível de educação, a ocupação anterior ou a origem geográfica, o brasileiro nos Estados Unidos se esforça para usar os símbolos de língua e cultura, como também de comportamento, para se distinguir de outros considerados menos elevados na hierarquia social, especialmente os hispânicos.

A classe social e a etnicidade às vezes coalescem nas tentativas dos brasileiros de se distinguirem de outros novos grupos de imigrantes. Por exemplo, em seu estudo de faxineiras brasileiras em Boston, Soraya Fleischer (2002) conta que as brasileiras realçam sua identidade étnica elogiando sua própria ética de trabalho e comparando-a favoravelmente com a ética de mulheres hispânicas que fazem o mesmo trabalho.

As brasileiras alegadamente trabalham mais, são mais primorosas e de mais confiança, mais caprichosas em seu trabalho do que as faxineiras hispânicas. Ao serem extremamente cuidadosas, as faxineiras brasileiras tentam corrigir o “desentendimento cultural” comum entre os americanos que todas as faxineiras são pessoas simples e sem educação. Ou como disse um imigrante: “A única maneira de mostrar quem você é, se não sabe falar inglês, a única maneira de se expressar é através do trabalho” (Menezes, 2002, p. 61). Nessa construção, os brasileiros são um povo tão trabalhador que, a partir do momento em que uma família americana contratar uma faxineira brasileira, nunca ficará satisfeita com uma faxineira de outra nacionalidade (Fleischer, 2001; 2002; Sales, 1999). Não é de se surpreender que tais “desentendimentos culturais” sejam particularmente comuns na área de trabalho doméstico pago. O serviço doméstico é especialmente difícil para o imigrante brasileiro por causa do pouco respeito que se tem, em geral, pelo empregado doméstico no Brasil. Esse tipo de emprego, mais do que qualquer outro, é antitético à vida e experiência pessoal do brasileiro no Brasil. O brasileiro recém-chegado nos Estados Unidos entra nesse setor do mercado de trabalho doméstico americano e rapidamente perde sua identidade social anterior. Essa disjunção entre as raízes sociais e a realidade atual fornece um “cursinho” em mobilidade descendente, algo que o brasileiro tenta mediar ao se apresentar como sendo superior ao imigrante “comum” (Margolis, 1990; Fleischer, 2001).

Ao se apresentar assim, o brasileiro está atribuindo a si mesmo alguns dos mesmos estereótipos que o americano tem do hispânico – que “não gosta de trabalhar” e que está metido em gangues, tráfico de drogas e outras atividades criminosas (Sales, 1999; 2001). A fim de se distanciar de tais estereótipos negativos, o brasileiro salienta sua própria etnicidade distinta ao se distinguir do hispânico em termos de sua ética de trabalho, aparência física, classe social, educação, língua e cultura. Essa demarcação é ajudada pelo fato de que, como muitos americanos, os brasileiros não distinguem os hispânicos por origem nacional, combinando-os em uma só massa sem diferenciação, um “outro” singular.

Essencialmente, então, os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos não estão abraçando somente estereótipos étnicos americanos, mas também hierarquias étnicas americanas. Tentam se distanciar dos negativos comumente associados ao grupo hispânico/latino e, assim, tentam ascender na escada étnica. No entanto, essas tentativas dos imigrantes brasileiros de se diferenciarem em termos de língua e cultura dos outros da América Latina não vem apenas de sua experiência nos Estados Unidos; são também o resultado de atitudes trazidas do Brasil, onde sentimentos de orgulho cultural, da singularidade da raça brasileira, como dizem, são salientados. Tais atitudes, por sua vez, têm suas origens em Portugal onde, de acordo com tradição, “de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos” (citado em Riding, 1992, p. 13). Assim, devido à sua herança lusitana, o brasileiro sempre se achou diferente do latino-americano falante de espanhol e não se interessa pelas raízes ibéricas comuns que compartilha com seus vizinhos latinos. Ou, como disse o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, “... o Brasil e a América Espanhola [estão] divididos em dois mundos, de costas um ao outro” (citado em Riding, 1989, p. 15).

Entretanto, o brasileiro nos Estados Unidos às vezes sente uma identificação com outros latino-americanos em termos de semelhanças culturais – comida e música, por exemplo – uma afinidade que raramente ou nunca se sente no Brasil. Isso é verdade particularmente em cidades como Miami. Para alguns imigrantes, viver no estrangeiro fornece uma nova lente através da qual reconhecem sua própria identidade. Ou, como disse um brasileiro em Miami, “Nós vimos à Flórida e descobrimos que somos latinos” (citado em Resende, 2002, p. 3). Mas essa é uma exceção. A maioria dos imigrantes brasileiros se esforça consideravelmente para demarcar e salientar sua nacionalidade, um fato demonstrado no censo de 1990 dos Estados Unidos em que mais de 90% dos imigrantes brasileiros se classificaram como “não-hispânicos” (Marrow, 2002). Já que a nacionalidade e as classificações étnicas não são necessariamente mutuamente exclusivas, o brasileiro poderia facilmente se identificar como brasileiro e, ao mesmo tempo, aceitar, pelo menos para alguns propósitos, a classificação de latino ou hispânico (Wilson, 1995). Mas não se pode negar que, na maioria dos casos, o brasileiro, especialmente o imigrante da primeira geração, não o faz; em vez disso, afirma sua identidade nacional apesar de qualquer pressão que exista para se identificar como hispânico ou latino.

Essa rejeição da identidade hispânica é de fato mais marcada na primeira geração dos imigrantes brasileiros. Os estudos sugerem que é mais fácil um jovem da segunda geração, que entende melhor o sistema étnico local, declarar sua “latinidade” em certos contextos onde é vantajoso fazê-lo (Menezes, 2002). Um pesquisador também achou que o brasileiro da segunda geração se mostrava muito mais disposto a se identificar como latino do que seus pais (Marrow, 2004). Parte da mistificação da identidade brasileira nos Estados Unidos provém do fato de que, os brasileiros não se encaixam bem no entendimento comum dos norte-americanos sobre o que é ser latino-americano.

Nos Estados Unidos, a América Latina é muitas vezes retratada como uma única civilização artificialmente dividida em diferentes nações.

Portanto, porque muitos americanos não percebem que o Brasil é diferente na língua e na cultura do resto da América Latina, a identidade brasileira se torna uma categoria nebulosa e contestada dentro do contexto da imigração.

 

 

 

Maxine L. Margolis - Professora emérita de Antropologia. Parte do Artigo: Brasileiros no estrangeiro: a etnicidade, a auto-identidade e o “outro”  - publicado na REVISTA DE ANTROPOLOGIA, SÃO PAULO, USP, 2008, V. 51 Nº 1. E-mail: maxinem@anthro.ufl.edu

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