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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

OUTUBRO VERMELHO JÁ COMEÇOU!


 
 
Hoje, dia 16, iniciou o evento organizado pelos estudantes do curso de Ciências Sociais da UNEB - Um debate sobre os 96 anos da Revolução Russa
 
 
Para a primeira mesa de abertura do evento foram convidados os professores Dr. Carlos Zacarias e o Dr. Giuseppe Benedini,  para a palestra e debate sobre "As origens da Revolução Russa"
 
 
A coordenadora do Curso de Ciências Sociais, prof.ª Dra. Regina Vieira, fez a abertura oficial do evento, agradecendo a presença de todos e falando da importância do Outubro Vermelho.
 
 
Paulo Francisco convidou Luan Oliveira, ambos alunos do Curso de Ciências Sociais para ser o mediador da primeira mesa dos trabalhos  
 
 
Luan convidou os professores convidados para a mesa
 
 
 
 
BASTIDORES DO OUTUBRO VERMELHO
 
 
Mesa de Recepção: Cadastramento dos participantes do evento
 
            
                                                                                                                          
 
 
 
 
 
 

sábado, 24 de agosto de 2013

Futebol, como assim?

Por Patrício Freitas
 
 
 




O futebol brasileiro e mundial não representa mais o povo, passamos por um processo de elitização do esporte, cada vez mais burocratizado e segregado por suas federações e organizações - tais como a FIFA e CBF.
Os espaços entre os guerreiros dos gramados e os que realmente amam a camisa, nunca estiveram tão distantes. A identificação com o clube de coração, o emocionante momento da bola rolando... Sempre foram características fundamentais, mas que hoje já não fazem o mesmo sentido. Absurdos como os preços cobrados nos estádios, o mercado criado em volta dos clubes, o distanciamento entre os que podem ou não participar desses espetáculos que fazem parte da cultura brasileira.
É com profunda insatisfação que venho afirmar, amo o futebol, mas essa pós modernidade esportiva não me representa! O Brasil não precisa de copa do mundo, pois o povo brasileiro não está inserido dentro desse contexto, não pode comparecer aos estádios e tem prioridades emergenciais. Não precisamos de copa, pois o povo brasileiro nada tem a ganhar com ela.

Não sou contra o esporte, sou contra a exploração do povo pelo faturamento imperialista.
 
 
 
Patrício Freitas é graduando do Curso de Ciências da UNEB e membro da diretoria do CACIS. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Evento: [DaDIÁSPORA] CICLO DE DEBATES.


[DaDIÁSPORA] CICLO DE DEBATES
TEMA: I CICLO DE DEBATES SOBRE TEMAS CONTEMPORÂNEOS
DOCENTE: Prof. Dra. Ana Claídia Lemos Pacheco
DATA E HORÁRIO: 16 de julho de 2013, 08hs às 21hs
LOCAL:Auditório Jurandyr Oliveira DEDC I – UNEB


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Movimento Estudantil: Reflexão acerca da UNEB

Bruno Mattos
 
 
O momento estudantil em relação à universidade ajuda no papel crucial na formação política do individuo. Nele deixamos de lado um pouco a lógica da divisão do trabalho social imposta pelo sistema capitalista e passamos a ser atores no que tange a transformação da vida acadêmica de todos estudantes da nossa universidade.
Estamos conscientes dos constantes problemas  e da necessidade urgente de melhoria para todos os cursos e da universidade, pois ambos estão ligados direta e indiretamente. Dentro da estrutura do movimento vemos os atores - Centros Acadêmicos ou Diretórios acadêmicos e Diretórios Central dos Estudantes, como canais de representatividade eleitos entre a base e instâncias administrativas superiores (colegiado, direção, reitoria) e fora da universidade como em eventos de interesse dos discentes.
Os Centros Acadêmicos ou Diretórios Acadêmicos atuam na base do movimento estudantil, como instrumento de luta atendendo os problemas gerais e desafios no  interior em cada curso e da universidade, a exemplo da promoção de eventos culturais, sociais, esportivos, as “calouradas” e demais ações ligadas ao movimento.
O Diretório Central dos Estudantes representa o conjunto dos universitários de uma determinada universidade com existência no mínimo de quatro cursos, onde os eleitos possibilitam aos estudantes o debate e mobilizações relacionadas àquela instituição, seus problemas, desafios gerais ou específicos e também a promoção de eventos culturais dentre outros.
A UNEB com sua estrutura física, particularmente o CAMPUS I, com 22 cursos se divide em quatro departamentos. Diferente de algumas universidades públicas, o estudante não precisa deslocar-se para outro local obrigatoriamente, salvo algumas particularidades, para assistir aula. Nesse sentido, a mobilização geral da comunidade se torna um desafio, pois não há contato direto com os demais cursos e outros espaços, como também a inexistência de um espaço de socialização, limitando-se apenas ao seu departamento. Também a atual gestão do DCE, se mostra ineficaz no sentido de promover uma articulação eficiente devido aos interesses pelo poder e suas vantagens. Baseado nessa afirmação, os CAs e DAs tem um papel crucial na UNEB, como entidades que legitimam a presença constante junto às bases.
Finalmente, os estudantes e os seus respectivos representantes eleitos, tem o desafio de construir o movimento de cada curso e para universidade, onde lutamos pelos verdadeiros valores da democracia resgatados pelas gerações anteriores, principalmente por estarmos dentro de uma universidade pública. Exigimos um Restaurante Universitário, creche, mais pesquisas e extensões, residências próprias e uma política de assistência estudantil efetiva, que de fato atenda indiscriminadamente qualquer estudante que dela necessite e queremos um DCE comprometido com as causas dos estudantes e não apenas comprometidos com seus cargos de direção, apadrinhados pela reitoria da UNEB.
 
 
Bruno Mattos - Graduando de Ciências Sociais - UNEB e Coordenador Geral do CACIS-UNEB


sábado, 22 de junho de 2013

Manifestação pacífica vira palco de guerra


De pacífico para palco de guerra. A manifestação do Passe Livre, que teve início no Campo Grande, na tarde deste sábado (22), começou com um grupo pequeno e pacífico. Saindo do Campo Grande, a passeata seguiu pelo Vale do Canela, Avenida Garibaldi, Lucaia e ACM. Ao chegarem a frente do shopping Iguatemi, por volta das 18h30, houve confronto.

A Polícia de Choque atirou bombas de gás lacrimogênio e gás de pimenta contra os manifestantes. Muitas pessoas voltavam da partida Brasil e Itália, na Arena Fonte Nova e foram atingidos. Mesmo sem revidar, os manifestantes eram atingidos com as bombas.

Homens e mulheres se sentiam mal com o forte ardor nos olhos e no corpo. Uma mulher precisou ser socorrida pelos manifestantes. Duas foram presas enquanto discutiam com os policias.

Desta vez, e diferente do que anunciou o governo do estado, a polícia agiu fortemente contra os protestantes. Até às 19h, o grupo já havia se dispersado e a polícia assumiu o controle. O cenário de guerra ficou. Os pontos de ônibus em frente ao shopping foram totalmente destruídos, assim como as lixeiras e as placas de propaganda.

De acordo com informações, o confronto no Iguatemi só aconteceu após a chegada do grupo que já havia se confrontado com os policiais no Vale dos Barris, quando tentaram furar o bloqueio policial em direção à Arena Fonte Nova.


Muitos manifestantes reclamaram da brutal ação da Polícia, já que o movimento seguiu pacificamente até o Iguatemi. “Não entendo porque isso, estivemos em paz até agora e quando chegamos aqui encontramos essa reação”, disse um dos estudantes.

Um grupo de policiais foi cercado pelos manifestantes que contestavam a ação. Para afastá-los, expiraram gás de pimenta no rosto das pessoas.

Na paz

Ao saírem do Campo Grande, cerca de 200 pessoas seguiram pelo Vale do Canela. De acordo com a organização do movimento, a passeata seria pacífica, e não haveria confronto, assim como maconteceu na primeira manifestação, na última segunda-feira (17).


O tenente coronel Baqueiro, também garantiu organização e segurança aos manifestantes.

No caminho, muitos iam aderindo ao movimento. Com faixas e gritos que pediam o passe livre, melhorias no transporte, redução da tarifa, bilhete único, reforma política, contra a PEC 37, e mais investimentos na educação, o grupo seguia pacificamente.

A polícia militar acompanhava o grupo, bem como a Transalvador.


Ao chegarem na Avenida Garibaldi, próximo ao monumento Cleriston Andrade, mais manifestantes que haviam partido do Iguatemi se juntaram ao grupo inicial, chegando a cerca de 2 mil pessoas. Até o Iguatemi, o grupo já havia crescido, com cerca de 5 mil manifestantes, quando ocorreu o confronto.
 

Disponível: Por: Juliana Costa; 22 de Junho de 2013 - 19h41

O BRASIL DA (DES) ORDEM

Patrício Freitas

Uma analise histórica, política, sociológica e pessoal sobre as atuais manifestações que tomam conta de todo o Brasil, em 2013:

Todo o processo de construção do Brasil sempre foi marcado por desigualdade e descasos dos governantes para a população. A educação no país sempre foi segregada, mesmo depois do processo republicano, onde se mantiveram os mesmos modelos do império. Os negros e ingênuos não foram privilegiados com oportunidades de inclusão, o que transformou o poder do governo e das elites em uma arma para manutenção das classes sociais.
Hoje, no sec. XXI as coisas não são diferentes, o Brasil passou por momentos históricos de lutas contra repreensão, mas o poder do estado continua se configurando de maneira rígida. Deixando claro que vivemos em moldes de estado burguês, onde fundamentamos o capitalismo como sistema econômico vigente, perpassando tais barreiras e atuando diretamente nos problemas sociais.
Dentro de um processo de maturação política é possível vislumbrar os problemas enfrentados em todo país. O governo se mostra incapacitado de garantir saúde, educação e de oferecer os recursos de assistências de maneira funcional.
Enquanto a população trabalhadora, pobre, preta e favelada está sofrendo com a incompetência desse sistema, as empresas privadas continuam explorando os serviços públicos – privatizações – e criando monopólios dentro do comercio de maneira geral.
O trabalhador Brasileiro desperdiça sua força de trabalho e é mal recompensado, pois os meios de produções se encontram nas mãos de uma minoria, que continuam explorando toda “mais-valia” possível. Além disso, sua jornada de trabalho vai além das horas previstas na carteira, é preciso enfrentar um trânsito que testa cada dia sua paciência, que não podemos resumir como o maior dos problemas.
Uma bola de neve parece está sendo acumulada. A população mesmo com dificuldade critica e alienada pelas mídias e indústrias culturais, vem se demonstrando cada vez mais insatisfeita com tamanha submissão.
O Brasil vive em um momento crucial, muitos fatores vêm culminando para explodir a insatisfação da sociedade civil, independente de classe, cor, sexualidade ou gênero.
O primeiro passo foi a descontentamento de estudantes em São Paulo, causado pelo aumento da tarifa do transporte publico, que vem superfaturando e enchendo os bolsos das empresas privadas. Os manifestantes foram recebidos com violência policial, o que acabou mobilizando gradualmente diversas cidades em todo país.
Essa manifestação impulsionou outras reivindicações, como não a PEC 37/2011, que se aprovada o poder de investigação criminal seria exclusivo das policias federal e civil, negando a atuação de outros órgãos, como o Ministério público; além da intolerância aos casos de corrupção; da continuidade de figuras em cargos públicos, como Renan Calheiros, Genoíno, Sarney entre outros, além de Feliciano, que vem causando polêmicas na comissão de direitos humanos e minorias; O povo se une para denunciar descasos e pedir soluções em diversas áreas.
Essas mobilizações civis estão tomando grandes proporções, graças à visibilidade mundial trazida pela copa das confederações e futura copa do mundo (Os grandes gastos para sediar a copa também estiveram entre as reivindicações).
Outra grande polêmica foi levantada, a negação de muitos manifestantes a respeito dos partidos políticos, o que prova a ignorância política em torno da nossa sociedade. Os partidos políticos são figuras representativas entre a sociedade civil e sociedade política, remetendo a ideais nos quais são conduzidos.
Negar um partido é ir contra as correntes democráticas reais. "O homem é um animal político", como já dizia Aristóteles. Os apolíticos e apartidários sustentam um discurso sem fundamentação nenhuma.
Croce, Mosca, Michels, Pareto... Preocupavam-se muito em escrever páginas bonitas, mas não levaram em conta o problema das classes sociais, sendo assim, inalterado a camada popular. Enquanto houver classes hierárquicas, haverá repreensão! Gramsci já refutava as idéias “reformistas” e os defensores de "revoluções passivas", o povo já está cansado de ser passivo; o povo está cansado de assistir!
Os partidos políticos são necessários, mesmo a democracia se fazendo impossível em tamanha proporção, o que já era afirmado pelo próprio Rousseau. Impedir o outro de levantar sua bandeira – principalmente as vermelhas – é violentar o direito pela liberdade de expressão e sustenta um discurso de direita conservadora.
Mas reafirmo aqui, o movimento deve ser suprapartidário e conduzido pela sociedade civil como um todo, pois as ruas estão sendo lotadas de todos os tipos de pessoas, com as mais diversas intenções. Mas nenhuma pode se sobrepor à principal: Um Brasil melhor!
Esse fenômeno toma as ruas brasileiras, é a sociedade civil forçando o poder de um estado totalitário e centralizador. O povo brasileiro está incomodado e vem sentindo a necessidade de gritar, cobrar, sair pelas ruas reivindicando por justiça; por uma nova justiça.
Enquanto isso, o estado vem reprimindo com violência! Os policiais usam e abusam do poder de armamento para impedir as manifestações. Armas leves são disparadas no confronto com a população – há casos de armas de fogo – que segue firme, mas que não possui o mesmo preparo.
Há denúncias de diversos abusos, muitas pessoas foram presas e interrogadas sem causas concretas – não riam – mas até porte de vinagre é motivo de prisão. Policiais tentando invadir estabelecimentos privados, quebrando viaturas propositalmente, dentre muitos escândalos que foram levados à tona.
As lagrimas de raiva e desesperos se confundiam com as provocadas pelo gás lacrimogêneo, a multidão desesperada, enfurecida... As consequências já eram esperadas nos imos de todos os presentes.
O caos se instaurou, arruaça, quebra-quebra, vandalismo, como preferir chamar. A população oprimida não viu outra maneira de chamar atenção, já não havia como controlar; as feras estavam soltas!
Não se esqueçam que nem todos ali são estudantes, conscientizados e nascidos em berço de ouro. Estavam também os marginalizados e excluídos socialmente, são os filhos bastardos do Brasil, que são violentados todos os dias, a cada negação de espaço e privilégios. O Sol não nasce para todos!
Agora eles estavam no poder, podendo chamar atenção e combater seus opressores de forma mais justa – sem balas de verdade – esse era seu momento, sua indignação por negarem um protesto pacífico. Os reflexos dos oprimidos, dos sujos e maltratados, esfomeados por justiça.
Esse é o povo que sofre pela “territorização”, que não pode desfrutar dos benefícios da burguesia, que afirmam em seus atos uma maneira de não serem esquecidos. A cada momento de poder, eles saem das capas de invisibilidade que a sociedade os cobre.
Não são vândalos por simples vontade de destruir, esse é o resultado de um sistema excludente em que nos encontramos, e que é sustentado por esse estado totalitário burguês, que sufoca seu povo debaixo de mentiras e omissões.
 
 



 FREITAS, Patrício. Graduando em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia. 21 de Junho de 2013.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Não houve vandalismo, aquilo foi o reflexo dos oprimidos!




Patrício Souza Freitas


Muita gente criticou alguns atos dentro do protesto, mas a primeira repreensão partiu da policia, que deixou o caos se instaurar na cidade apenas por recomendações da FIFA. Mais uma vez está provado a prostituição do nosso país, que se vende para empresas privadas e instituições, inclusive negando os direitos de manifestação e de "ir e vir".

Se não houvesse as repreensões policiais, não gerariam tais reflexos. Nosso objetivo era ir até a Fonte Nova, mas só quem estava em linha de frente e participou do confronto sabe de que forma a manifestação foi recebida; Balas de borracha, bombas de gás, spray de pimenta, bombas de efeito moral, avançaram a cavalaria, soltaram os cachorros! Alguns policiais ainda tentaram invadir um estabelecimento privado onde os manifestantes que estavam passando mal tentavam se estabelecer dos atos de violência .

Essas atitudes foram vergonhosas e só me remetem a uma palavra: DITADURA! Povo Brasileiro, essa luta é nossa e precisamos ir para a rua, mas não podemos baixar a cabeça para esse totalitarismo. É a sociedade civil confrontando o poder do estado!
 
 
 
Patrício Souza Freitas - Graduando de Ciências Sociais - UNEB
 
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Eu estava na manifestação das ruas de Salvador hoje!


 

 

 
Ana Terra Araújo
 
 
Sim, eu estava na manifestação hoje, que ocorreu aqui em Salvador. Antes de tudo, gostaria de agradecer o carinho de todas as leitoras que mandaram mensagem pro Relicário e para o meu perfil pessoal. Eu estou bem, com um pouco de dor de cabeça por causa do cheiro da Gás, mas, bem! E com isso gostaria de relatar algumas coisas:
Ponto 1: Fiquei extremamente feliz de ver pessoas na rua que estavam cientes do manifesto e estavam lá em nome do mundo, em nome da paz.
Ponto 2: No momento em que estavam decidindo qual roteiro deveríamos tomar, um individuo, sentiu-se no direito de falar o que bem quis, anulando toda pauta da reunião que havia ocorrido ontem (pautas essas, que eu tive conhecimento, pois no mesmo momento eu e meu namorado conhecemos um cara que estava nessa reunião de ontem).
Ponto 3: Posteriormente, esse mesmo cara que anulou todas as pautas, achou-se no direito de discorrer argumentos inteiramente machistas, que me incomodaram bastante....
Resumidamente: fique p* da vida!
Ponto 4: O manifesto estava lindo, tudo ocorrendo pacificamente, mas, como sempre, do nada, na calada, na surpresa: Surgiram os indivíduos que "dizem" ser responsáveis pela segurança da sociedade. Porém, há algo EXTREMAMENTE errado aí.

Bom, como já foi dito: Paz sem voz, não é paz é medo! Precisamos rever e reorganizar alguns pontos e continuar na luta, afinal de contas, não é Carnaval, é Salvador, o mundo, caindo na real.
 
 
Ana Terra Araújo - Graduanda de Ciências Sociais da UNEB

terça-feira, 18 de junho de 2013

Tomara que os governantes ouçam as vozes da rua...




Valdélio Silva

As ruas estão nervosas, bandeiras desfraldam sentimentos de uma geração indignada e que exige mudanças. Lembro de minha geração que ajudou a sepultar a ditadura. A história atual, entretanto, é outra. A juventude de agora tem liberdade. No passado muitos/as deram a vida por essa conquista. Ter liberdade basta? As vozes que ecoam das ruas parecem dizer que querem liberdade e muitas outras coisas: comida barata na mesa; transporte limpo, barato e pontual; segurança para ir e vir e proteção da polícia, não a sua costumeira truculência; justiça para os desmandos dos políticos canalhas que povoam o Brasil; saúde decente para o povo pobre humilhado pelas filas e ainda por cima não ser atendido; escolas públicas que não sejam o faz de conta que temos hoje. Parece que clamam também contra a ganância dos empresários vampiros que privatizaram o Estado. Do que adiante liberdade se homens e mulheres negras continuam ainda próximos da escravidão que parece não ter fim? Tomara que os governantes ouçam as vozes da rua. Ou, quem sabe, eles nem tenham tempo de desocupar os palácios.
 
 
Valdélio Silva: Doutorado em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia - Professor de Antropologia da UNEB.
 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O povo brasileiro é lindo!

Eu pensei que nunca mais veria essas lindas imagens. Não importa que a imprensa diga que são atos de "vandalismo" no Brasil, enquanto mostra as imagens de movimentos em outros lugares mundo, que eles tratam como "manifestações". É lindo ver que as pessoas não estão no virtual apenas para o que denomina-se de "futilidades", eles se organizam e fazem o movimento político do virtual para o real de cara limpa e peito aberto para transformar o mundo.
 
Salvador (hoje)
 
Salvador (hoje)
 
Salvador (hoje)
 
Rio de Janeiro (hoje)
 
Brasília (hoje)
 
São Paulo (hoje)
 
Belo Horizonte(hoje)
 
 
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A Omissão dos Direitos Humanos - Luan Oliveira




A Omissão dos Direitos Humanos
 
Luan Oliveira

Após o Pastor ultraconservador Marco Feliciano assumir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados, emergiu da sociedade atitudes de repúdio ao deputado-pastor do PSC. Oriundas principalmente das redes sociais, aliás, este foi o local onde o pastor reproduziu suas atrocidades ideológicas e demonstrou uma mentalidade retrógrada que aparenta estar longe de deixar o Brasil, a rejeição adotou um slogan: Feliciano não me representa. A revolta social em massa demonstrou a mobilização da sociedade sobre um fato aparentemente absurdo que ameaça uma Comissão de relevância social extraordinária. Este contra golpe, liderado pelo Partido Social Cristão contra uma “onda de humanidade” que atinge países mais lúcidos como a França, e que poderia chegar ao Brasil, elucida a força que o pensamento arcaico religioso ainda desafia a nossa “Constituição Laica”. Por fim, fica uma pergunta ao cidadão brasileiro: quem Feliciano representa?

 Primeiramente, Feliciano representa todos que desejam substituir a Constituição Brasileira pela Bíblia Sagrada. Ou seja, aqueles que não se libertam de suas viseiras ideológicas e moldam o mundo segundo seus pre(con)ceitos: está na Bíblia, e isso basta!

Em segundo, Feliciano representa o pensamento preconceituoso, as vozes que foram a favor da escravidão, as vozes que negaram os votos às mulheres, as vozes que marcharam pela Família com Deus pela Liberdade, representa as vozes que não acompanham seu tempo, enfim, todos aqueles que negam aos outros um direito que já possui, em outras palavras, Feliciano representa os humanos desumanos.

Terceiro, o pastor representa àqueles que são contra a família, representa a família arcaica, machista e homofóbica, que nega o amor, que põe o preconceito acima do sentimento humano.

Por último, representa a politicagem brasileira que negocia comissões, que não dá relevância alguma aos direitos das minorias, que coloca a manutenção do poder acima do povo...

Feliciano não me representa por mostrar desumanidade contra os seres humanos! Não me representa porque sou um ser humano.

 

Luan de Jesus Oliveira, graduando em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia.

sábado, 1 de junho de 2013

Comentários do Filme "A àrvore da vida"




O filmeA Arvore da Vida” é do cineasta Terrence Malick, ė um filme profundo, tem uma fotografia belíssima. Inicia mostrando a teoria do Big Bang sobre a origem do nascimento do universo, com a terra parindo a natureza e formando as primeiras células, numa perfeita harmonia de movimentos perfeitos e sincrônicos com a energia provedora da vida. É um momento mágico da origem da vida a partir do nascimento no mar, com os primeiros seres vivos se formando por um turbilhão de células vivas, que gera as plantas que crescem enormes e os dinossauros em formação, se arrastam na beira da praia, se dirigindo para a terra.

Para mostrar o nascimento de um ser humano o cineasta busca o aspecto religioso e legalista da formação de uma família, com o relacionamento de um casal – namoro, noivado, casamento e a partir dessa ideia, vem o nascimento de uma criança, com toda a sua toda sua trajetória de aprendizado com os pais presentes, seu crescimento físico, mental e emocional e suas relações sociais com a família num mundo limitado do lar e com o mundo que aparentemente não tem muitas referências, considerando que os três irmãos não tem amigos, tudo se movimenta ao redor dessa família que vai a igreja.

A narrativa das lembranças é feita pelo filho já adulto, um homem aparentemente desconectado com a realidade que o cerca, então, a fala é da criança que se lembra dos fatos marcantes sua infância, até chegar essa fase adulta. O arquétipo materno é de uma mãe doce, acolhedora, serena, quase mágica, que se confunde com a delicadeza de uma fada, uma mãe tão poderosa que a sua imagem fica profundamente viva dentro desse filho, que vive uma realidade distanciada de si mesmo.

Toda a delicadeza da relação materna vai mostrar também a contradição dessa família “quase perfeita” que é o obstáculo paterno. O pai ė um homem disciplinado, forte, que  imprime um código de autoridade sólido com valores religiosos e uma rígida disciplina. Apesar disso ė um homem sensível, com um refinado gosto por músicas clássicas, toca piano e tenta ensinar os três filhos a tocar um instrumento musical. Apesar de sua rigidez o pai era afetuoso com os filhos e a esposa, porém, o garoto guarda uma mistura de amor, ódio admiração pelo pai, mas, rebela-se contra essa autoridade e isso fica evidente na pergunta do garoto: Por que ele nos machuca, o nosso pai?

O filme traz reflexões profundas sobre as relações dentro de uma família tradicional com pai - com emprego estável, mãe – dona de casa e irmãos relativamente normais e  de quanto essa relação “saudável” de convivência doméstica, é  importante para a constituição e formação da personalidade de uma pessoa na vida.

O aspecto religioso está presente em vários momentos e aponta para as reflexões sobre a autoridade paterna como um castigo, como forma de forjar o caráter para tornar-se bom ou mau na vida. A perda de um irmão vai evocar o sentido da ligação com elo materno e a solidão pela morte de um ente familiar, como se um galho da árvore fosse cortado dessa relação familiar. Mais uma vez, denota-se o sentido religioso do filme, demonstrando a aceitação resignada da família diante da perda e sem respostas.

O final do filme vai mostrar mais um aspecto religioso, que é o grande retorno e reencontro com o mar, onde aparecem outras famílias no mesmo processo, como também a sua, os seus pais velhos que rejuvenescem e ele o filho adulto, carregando seu próprio filho, como se fosse o começo de uma nova vida com o sol nascendo no mar, o que nos remete a crença da vida eterna.
 
 
Por: Fátima Barreto - Graduanda de Ciências Sociais - UNEB


sábado, 25 de maio de 2013

Por uma redução do abismo social, não da maioridade penal

Por Luan Oliveira
 


 
 
Refletir sobre as infrações cometidas por adolescentes é antes de tudo, uma reflexão sócio-política sobre – desculpe a redundância – as questões sócio-políticas brasileiras. Nas linhas que daqui decorrerão, não pretendo omitir o fato que alguns menores possuem emancipação intelectual para discernir “certo e errado”, os burgueses, por exemplo, possuem uma educação privilegiada, restrita à sua classe, e antes de atingir a maioridade legal adquirem à capacidade de responder por si conscientemente, mas não legalmente, e jovens favelados (não pretendo aqui generalizar, a descrição é feita para dar ênfase ao abismo entre as classes) chegam à maioridade legal sem potencial para responder por si. A elitização do judiciário é um exemplo disso, o conhecimento das leis é restrito, é possível, para não dizer provável, que a maioria dos marginalizados cometa seus delitos, mesmo conhecendo artigos e leis (a numeração, como a famosa 157), sem “total” conhecimento das possíveis sanções. Entretanto, esse perfil burguês, de jovem privilegiado socialmente, detentor de condições materiais ímpares, capaz de responder por si, está, a partir do discurso ideológico reacionário está sendo fantasiado nos menores da periferia, numa tentativa de esquecer reparações sociais em nome de repressões policias.
Observemos por princípio e superficialmente as condições econômicas do Brasil. Devido à sua desigualdade, adolescentes brasileiros possuem meios diferentes para a aquisição de bens materiais. Ora, vejamos a quantidade de jovens ricos que trabalham na juventude... O número é mínimo! Não queremos aqui criticá-los, pois o tempo livre permite que os burgueses tenham mais tempo para estudar, adquirir conhecimento visando à resolução dos problemas sociais do país. Além disso, sua dificuldade em conseguir saciar seus desejos materiais consiste em decidir se liga para mãe ou pai, em alguns casos a dificuldade aumenta, e o burguês tem que decidir também entre os avós!
Passaremos à mesma análise à classe pobre, que também possui seus desejos, suas demandas. Os jovens desassistidos têm meios diferentes, bem diferentes, de saciar suas necessidades e seu “luxo”. A renda familiar geralmente não supre a demanda vaidosa de um jovem no ápice da puberdade. Você pode não conhecer, mas na favela também tem moda! A realidade de pedir a papai e mamãe não existe, é necessário, ou melhor, obrigatório, trabalhar, e se não há empregos suficientes, o crime está de braços abertos para deformar mais um adulto em gestação, por conseguinte, a educação precária já não tem valia alguma.
Vejamos agora, o sistema educacional brasileiro. É fato, que a melhor educação inicial brasileira é privada, e cara. Logo, obtém a melhor formação quem pode pagar (a classe burguesa)...  E o outro lado? E aqueles que não podem pagar?
A classe pobre, que fica à mercê da educação pública, sofre o processo de inferiorização intelectual. A precariedade da educação mantém o abismo das classes sociais brasileiras...
Sustentar a redução da maioridade penal é acreditar que a educação brasileira é igualitária, que não há desigualdade social. É sustentar que todos possuem as mesmas condições para saciar o seu desejo. É pensar que o Brasil é justo, que brancos e negros, ricos e pobres possuem as mesmas condições sócio-políticas-culturais!
Vale ressaltar que se você apoia a redução da maioridade penal, você acredita que existe uma razão biológica para que menores pobres (majoritariamente negros) cometam a maioria dos delitos, ou ainda, que uma incrível coincidência rege o mundo, fazendo com que os mesmos cometam a maioria dos crimes da juventude brasileira.
Logo, se não acredita nessa falácia, é contra a redução da maioridade penal, e sabe que a criminalidade na juventude é um problema da estrutura social brasileira e não somente dos indivíduos. Problemas sociais são resolvidos na sociedade! Antecipar a idade penal é demonstrar que é incapaz de evitar o possível delito. É o certificado de incompetência do Estado.
 
 
Luan de Jesus Oliveira, graduando em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia.

 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

PRIMEIRO DE MAIO: DIA DO/A TRABALHADOR/A.

Por: Sandro Roberto Santa Bábara
 
 

 
 Neste PRIMEIRO DE MAIO muitas palavras deveriam ser proferidas ao lado de muitas atitudes que deveriam ser tomadas! Com a licença e o respeito aos/as militantes do Partido dos Trabalhadores deveríamos está completando dez anos de muitas realizações que seriam reconhecidas como avanços na direção de uma sociedade socialmente justa e com orientações de superação do capitalismo em nosso país.

A despeito de reconhecidas ações na área educacional como a expansão dos IFES, das unidades de universidades federais instaladas na Bahia como a UFRB e a UNIVASF (junto com Pernambuco) e as duas outras que ainda serão instaladas cabe salientar que o processo de precarização do trabalho também e, infelizmente, caminhou e caminha junto com essas instalações.

O processo de concretização de políticas afirmativas como as conhecidas cotas representa não só uma vitória do ponto de vista simbólico, mas do mesmo modo configura-se como uma vitória sem igual e sem precedentes na história de lutas do povo negro e dos povos indígenas (arbitrariamente assim chamado). TODAVIA, no que diz respeito e, em particular, aos povos ARBITRARIAMENTE chamados indígenas as sucessivas tentativas das suas lideranças e representantes de sensibilizar o Governo Federal quanto às agressões sofridas por estes povos têm sido ineficazes frente ao imobilismo e insensibilidade com as quais estão sendo tratados.

A defesa da governabilidade, transformada em um conceito quase intransponível e inquestionável, conferiu à base aliada capitaneada pelo PT no âmbito do governo federal e nos âmbitos estaduais e municipais um “céu de brigadeiro”. Onde esteve hegemônico a proliferação do discurso de realizar “o que era possível” caiu como uma luva, pois em face dos aliados partidários que nem sequer possuíam ou possuem agenda programática alinhada à trajetória de lutas que formou o PT, a CUT e tantos sindicatos e associações criadas ainda no bojo do fim da ditadura militar a presença da contradição ideológica e PROGRAMÁTICA teve o seu lugar garantido.

Certa vez escutamos em cursos de formação de política, nos bancos das universidades, nos pátios e bares da vida que o processo que mobiliza as massas é cunhado dentro desta contradição! A contradição como motor da história! Desde que no momento do “assalto aos céus” estivéssemos preparados/as para tomar o assento revolucionário em um governo dos/as trabalhadores/as, dos/as “produtores/as livres”. Deveríamos construir o tal do “acúmulo histórico”!

E construímos? O que estamos construindo? Para quem? Quais as ações que representam efetivamente avanços na luta pela superação do estado capitalista em nosso país? Óbvio que devemos compreender que o “processo” é lento e gradual, mas NÃO deveria ser DOLOROSO para as MASSAS que VIVEM do TRABALHO!

Senão vejamos: sucessivas e renhidas agressões às conquistas históricas dos/as trabalhadores/as, alinhamento à uma política econômica de contenção que atinge ferozmente as frágeis tentativas de milhares de famílias brasileiras de APENAS sobreviverem a cada ideia de liberação de CRÉDITO (portanto, DÍVIDA) não representam avanços para a edificação de um outro mundo possível.

O mantra, “não se pode viver no melhor dos mundos”, proferido há vinte e dois anos atrás no Consenso de Washington fez escola mundo a fora e, em especial na América Latina. Mais do que nunca e “nunca antes na história deste país” tentaram nos fazer crer na política como a “arte do possível”.

Pois bem, se é possível VIVER no pior dos mundos (como se RECUSAR a dialogar com homens e mulheres que VIVEM do trabalho e lhes impor a regra do “eu mando e vocês obedecem) como nós estamos vivendo então provado está, ao menos DIALOGICAMENTE, que é possível viver SIM no melhor dos mundos!

Os antigos gregos acreditavam no conceito de UTOPIA como sendo o LUGAR não encontrado! E já que existe um lugar para ser encontrado, trilhemos os caminhos que nos levem a este lugar!
 
 
 
Sandro Roberto Santa Bárbara - Cientista político e Professor da UNEB

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Antropólogo ou espião?


 


Eu fui dragado pela então chamada Etnologia Indígena muito cedo. Tinha uns 20 anos quando pelas mãos de Luiz de Castro Faria fui levado ao Museu Nacional e iniciado por um entusiasmado jovem Roberto Cardoso de Oliveira nos mistérios luminosos das sociedades sem escrita, grupos tribais com uma tecnologia modesta e um assombroso simbolismo, mas sempre tidos como "primitivos", "atrasados" e "selvagens".
Nos anos 60, quando isso acontecia comigo, a vida política brasileira girava em torno do binômio desenvolvido/subdesenvolvido. Era urgente, dizia-se, "mudar as estruturas!".
Logo fui apresentado ao pensamento de Claude Lévi-Strauss. Um primeiro momento de reflexão foi sobre o ensaio Estrutura Social (publicado no livro Antropologia Estrutural, em 1958), mas apresentado e discutido numa reunião internacional em 1952 nos Estados Unidos. Antes, eu havia trabalhado com o livro Social Structure, de George Peter Murdock, professor em Yale. Fui casado com a senhora "estrutura" por algumas décadas e, pensando bem, jamais pedi um divórcio. Cada geração tem uma palavra mágica - e a dos meus contemporâneos foi "estrutura".
A "estrutura" no singular era vista como um instrumento para o entendimento da sociedade. Já "as estruturas" definiam uma substância histórica claríssima feita de instituições e práticas sociais atrasadas - como o feudalismo rural brasileiro - a serem radical e facilmente transformadas pelo Estado. Na medida em que me tornei um pesquisador de povos indígenas e fui me civilizando, meu destino foi marcado mais pelo primeiro significado do que pelo segundo.
Minha primeira viagem de campo foi realizada entre agosto e novembro de 1961. Nesse período, vivi com os índios Gaviões do Sul do Pará, como provam as 600 páginas escritas em cadernos de capa verde musgo, de acordo com instruções do meu professor. O "diário de campo" era para os antropólogos o mesmo que a leitura do Breviário para os padres. Coisa sagrada esse registro de tudo o que podíamos observar. Meu diário foi aberto no dia 8 de agosto, em Marabá, e fechado em 30 de outubro de 1961, na aldeia do Cocal.
No dia 15 de agosto, eu estou em Itupiranga, Pará, e me preparo para cruzar o Tocantins e seguir para Leste, na direção do que hoje é Nova Ipixuna, com o objetivo de chegar à Aldeia do Cocal com meu companheiro de aventura Júlio Cezar Melatti, um grande e generoso antropólogo, hoje professor emérito da Universidade de Brasília. Em 18 de agosto - depois de um dia e uma noite na mata - chegamos à aldeia. Por onde começar? Eis a pergunta que todo etnólogo faz a si mesmo, tal como um menino num parque de diversões, um prisioneiro na cela, ou um noivo em lua de mel.
Todas as entradas do meu diário revelam uma recorrente dificuldade em lidar com o mundo aborígine. Muito angustiado, escrevo: "Eles falam e eu não entendo, eu falo, eles não entendem". A marca desses primeiros dias foi uma aproximação física um tanto exagerada - eles nos tocam para ver se somos reais. Tudo o que faço é visto e comentado: não há privacidade. Comemos com eles e descobri que o estudo da "estrutura" promovia fome. Estava enrascado. A aldeia ficava a um dia de viagem de Itupiranga (que, na época, tinha umas seis ruas) e Itupiranga ficava a um dia de Marabá. Na aldeia, 15 homens, 6 mulheres e apenas 2 meninos exprimiam, debaixo do nome de "Gaviões", uma forma de humanidade.
Estava antenado na teoria das estruturas, mas não tinha rádio. Os índios, por sua vez, não queriam saber de suas tradições e só falavam dos seus mortos pelo contato conosco - os estrangeiros-inimigos. Naquele tempo eu não sabia nada das perdas e da morte. Estava protegido por minha alucinação antropológica.
Mais para dentro do mato havia um posto de extração de castanha com uns seis ou sete trabalhadores comandados por um chefe chamado Lourival. No dia 29 de agosto de 1961, ele falou da renúncia de Jânio Quadros (ocorrida no dia 25) e da crise institucional que reinava no que chamava de "Sul" (o Brasil) que, como disse, estava "vivendo uma cagada". Uma das muitas que infelizmente tenho testemunhado em minha vida.
Estava emparedado entre duas estruturas. A "social" dos índios, que eu tinha a obrigação de desvendar e não sabia como; e a do Brasil, que, pelo que tudo indicava, começava a mudar para pior.
Mesmo em meio a essa maluquice iniciatória, porém, eu havia estabelecido um plano para enviar e receber cartas. Um certo João da Mata, logo identificado como um possível parente, prestou-se a receber nossa correspondência e enviá-la às nossas mãos. Recebemos as primeiras cartas no dia 31 de agosto, entregues por um jovem caçador que passou rápido pela aldeia.
No final do trabalho, de volta a Itupiranga depois de passar fome e ter sido vítima de malária, encontramos o prestativo senhor de nossas cartas.
Houve um confronto: por que, perguntamos, toda a nossa correspondência fora violada? Ora - respondeu João da Mata -, porque eu não acreditei que vocês fossem cientistas. Esse interesse pelos "cabocos Gaviões" não podia ser verdade. Vocês seriam garimpeiros em busca de ouro ou, quem sabe, espiões americanos procurando urânio. As cartas mostravam que eram cientistas e eu me orgulho de os ter conhecido.
Ao pegar o "motor" que ia nos levar de volta a Marabá e, dali, ao Brasil que eu tanto queria mudar, eu ainda ouvia essas palavras. Elas jamais saíram da minha cabeça...
 
 
Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo
 
 
 
 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Afinidade

AFINIDADE

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
E o mais independente.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
as distâncias, as impossibilidades.
Quando há afinidade, qualquer reencontro
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto
no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo para o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.
Mas quando existe não precisa de códigos
verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois que
as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar
a um não afim, sai simples e claro diante
de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavras.
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento...

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra,
nem sentir para, nem sentir por.
Quanta gente ama loucamente,
mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar, ou, quando falar,
jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,
quanto das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que
parou sem lamentar o tempo de separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida,
para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais a expressão do outro sob a
forma ampliada do eu individual aprimorado.
 
Autor: Artur da Távola

domingo, 31 de março de 2013

Metrópole, Estado e Capital: o urbano na atual etapa da ordem capitalista

Por: Flavio Vilar*
 

Como entender a mudança ou não do papel do urbano nesta nova etapa de expansão do capitalismo brasileiro? Partindo desse questionamento o INCT – Observatório das Metrópoles deu início ao ciclo de debates “Metrópole, Estado e Capital” com o objetivo de interpretar as transformações vividas pelas metrópoles brasileiras no século XXI e oferecer a análise mais completa sobre a evolução urbana do Brasil nos últimos 30 anos (1980-2010). O primeiro debate contou com a participação do professor Carlos Eduardo Martins que apresentou os resultados do seu livro “Globalização, dependência e Neoliberalismo na América Latina”.

 

O ciclo de debates “Metrópole, Estado e Capital: o urbano na atual etapa da ordem capitalista no Brasil. Mudanças? Fundamentos teóricos” é mais uma das ações que o Observatório das Metrópoles vem realizando em 2013 a fim de produzir um estudo comparativo sobre as 15 principais regiões metropolitanas do país, relacionando as mudanças econômicas, sociais e políticas às dinâmicas urbanas nacionais, regionais e locais. Vinculado ao Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), o projeto tem como objetivo oferecer uma análise mais completa sobre a evolução urbana brasileira, servindo assim de subsídio para a elaboração de políticas públicas nas grandes cidades e para o debate sobre o papel metropolitano no desenvolvimento nacional.
 

 
Globalização, Dependência e Neoliberalismo na América Latina
O ciclo “Metrópole, Estado e Capital” realizou o seu primeiro debate, na última terça-feira (19/03), na sede do Observatório das Metrópoles no IPPUR/UFRJ, e contou com a palestra do professor Carlos Eduardo Martins – um das principais vozes a investigar o fenômeno da globalização.


Carlos Eduardo Martins e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro
 
 
Ele apresentou os resultados do seu livro “Globalização, Dependência e Neoliberalismo na América Latina”, no qual cumpre a difícil tarefa de atualizar as teorias sobre esses três conceitos-chave para o pensamento contemporâneo e a compreensão das sociedades, principalmente as periféricas. Em uma época de grandes incertezas e enorme aceleração do tempo histórico, o autor se propõe o desafio de captar o movimento de crescente articulação entre o global e as particularidades regionais, nacionais e locais, bem como os choques entre forças sociais, políticas e ideológicas.
Mapeando as forças dinâmicas de um mundo paradoxal, Martins parte dos estudos de Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi sobre o capitalismo histórico e avança para uma discussão rigorosa da crise do moderno sistema mundial. “Estruturas, tendências seculares e ciclos permeiam o nosso trabalho, que não tem a pretensão de oferecer certezas matemáticas”, afirma o professor sobre a análise retrospectiva e prospectiva do livro.



Logo no início da obra, Martins apresenta uma introdução metodológica à globalização, com ênfase nas teorias do sistema mundial e da dependência. Nesse percurso, incorpora um elemento explicativo fundamental para a compreensão do processo de globalização: a teoria de Marx sobre a tendência decrescente da taxa de lucro provocada pela revolução científico-tecnológica, quando ciência e tecnologia entram no processo como meios de acumulação do capital.
 


O professor também busca identificar as tendências seculares e os ciclos para situar o espaço histórico da etapa atual do capitalismo e do sistema mundial em que vivemos. “Defendemos que a globalização é uma força revolucionária e, como tal, destrói e constrói. Entretanto, destruição e construção são processos relativamente autônomos e estabelecem uma dialética de desdobramentos imprevistos, onde um dos polos pode prevalecer e condicionar o outro”, afirma. “No momento em que estamos, a globalização não encontrou ainda sua estrutura institucional e societária criadora. Os períodos de crise sistêmica são épocas de bifurcações históricas, e nossa tese é a de que caminhamos nos próximos dez a quarenta anos para uma bifurcação totalmente nova, em relação às que se estabeleceram no moderno sistema mundial”.

 
Para discutir as relações entre dependência e desenvolvimento no moderno sistema mundial, Martins utiliza a análise empírica e as principais teses formuladas pelo pensamento latino-americano. Assim foi possível avaliar o papel do capital estrangeiro nesse processo, a persistência do subdesenvolvimento e da pobreza, os efeitos do neoliberalismo sobre a base econômica e social e os caminhos da elevação da renda e do bem estar dos latino-americanos.
 

O estudo contempla ainda uma análise minuciosa da crise do sistema mundial e da hegemonia norte-americana decorrente do desenvolvimento desigual e da superexploração dos trabalhadores, além de uma analise prospectiva das possibilidades da América Latina no século XXI e da influência sobre seu desenvolvimento da projeção da China na economia mundial. “O balanço da questão da hegemonia e das perspectivas do século XXI permite ao autor abordar um capítulo extremamente novo na história das ideias sociais ao estudar as relações entre a teoria da dependência e a teoria do sistema mundial”, diz Theotonio dos Santos no prefácio. “Creio que o leitor compreenderá rapidamente que este é um livro essencial e necessário, com grandes possibilidades de se converter num clássico das ciências sociais latino-americanas, sobretudo neste momento histórico, em que a região necessita de um rigoroso aparelho teórico para fundamentar suas políticas progressistas em marcha com crescente apoio popular”.


* Flavio Vilar é Mestre em Sociologia, Especialista em Políticas Públicas, ambos pela Universidade Federal de Goiás, bem como professor de Geografia.


Disponível em: http://www.waltersorrentino.com.br/2013/03/27/metropole-estado-e-capital-o-urbano-na-atual-etapa-da-ordem-capitalista/#more-6157