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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Breves considerações sobre o processo político democrático brasileiro


Por Paulo Francisco de Souza

 

Devo dizer que  Brasil viveu sua primeira experiência “democrática” em 1889, quando um golpe militar sob a forma de uma quartelada quase sem força política e nenhum apoio popular tirou o cargo de primeiro-ministro do visconde de Ouro Preto, e, por incentivo de republicanos como Benjamin Constant Botelho Magalhães, o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República e enviou ao exílio a Família Imperial. Por conta da falta de participação popular nesse episodio, criou-se o jargão de que “os brasileiros assistiram bestializados a Proclamação da república”. Entretanto Jose Murilo de Carvalho em seu livro, os Bestializado, busca refutar essa afirmação, mostrando que a proclamação da republica, foi um processo que se iniciou já nos anos de 1870, com participação da população e veio ter seu desfecho em 1889. Pode-se dizer que o movimento republicano teve vários fatores, entre eles destaco a abolição da escravidão no Brasil como um dos fundamentais. A abolição gerou um grande descontentamento entre os oligarcas e escravocratas, que assim passaram a apoiar o movimento republicano que já vinha ganhando força. Entre 1889 e 1930, o governo foi oficialmente uma democracia constitucional, mas o que se observa de fato é período republicano ditatorial.  Isso por que ja partir de 1894, a presidência alternou entre os estados dominantes da época: São Paulo e Minas Gerais, essa situação política do período ficou conhecida como Política do Café com Leite ou política dos estados, gerando assim um equilíbrio de poder entre os estados. Essa situação só viria a se modificar em 1930, com a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, que instituindo um "Governo Provisório", até que novas eleições fossem convocadas.

Em 1930 Júlio Prestes é eleito presidente, porém os perdedores, que tinha Getulio Vargas como principal expoente não reconheceram sua vitória e em 03 de outubro tropas revolucionárias marcharam para o Rio de Janeiro, ocorrendo em 24 de outubro um golpe militar que depõe o então presidente Washington Luís, Júlio Prestes é impedido de tomar posse como presidente da república e também é exilado. É formada assim uma Junta Militar Provisória, que então passa o poder a Getúlio Vargas, em 03 de novembro de 1930, encerrando o período que ficou conhecido como República Velha e iniciando o Governo Provisório.

 

Em 1932 os paulistas insatisfeitos com a situação política tentam depor Getulio, alegando que o país precisava de uma constituição e que Getulio assumiu o poder alegando um governo provisório e que deveria ser realizadas eleições para presidente.

Assim, após uma guerra civil deflagrada pelos paulistas em 1932 que ficou conhecido como revolução constitucionalista. Assim, após o movimento ter sido derrotado, em maio de 1933, são feitas eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte que em 1934 elege Getúlio Vargas presidente da república e cria-se uma constituição. Esse período de governo constitucional durou ate 1937 e foi marcado como um período conturbado, principalmente pela ação do partido comunista do brasil.

Por conta dessa tensão política vivida, Getulio dois meses antes das eleições presidenciais, dá um golpe de estado, promulga nova constituição e instaura o estado novo, período que duraria até 1945, quando Getulio é forçado a renunciar, assumindo então o general Eurico Gaspar Dutra. Em 1946 é promulgada uma nova Constituição, mais democrática e de caráter mais liberal que restaura certos direitos individuais, dando ao povo a representação através do voto, e estabelecendo o voto feminino, essa constituição deu novas perspectivas democráticas ao Brasil.

Em 1950 Getulio volta ao poder por vias democráticas, porem por conta de uma forte pressão e o fracasso da sua política de populismo, se mata com um tiro no peito em 1954.

Com a morte de Getulio assumi o então vice-presidente café filho, que fica no poder ate 1955, sendo realizada nesse ano novas eleições. Dessa vez o presidente eleito é Juscelino Kubitschek, que enfrenta entre o período de sua eleição e o período de sua posse uma forte ameaça de golpe. Juscelino governa ate 1960 quando é eleito Jânio Quadros. Jânio assume em 1961, porem governa por um curto período, renunciando em agosto do mesmo ano. Quem assume é o vice-presidente João Goulart, porem os militares não aceitam “Jango” como presidente, criando assim um regime parlamentarista, entretanto “Jango” reassume em 1963. “Jango” como era conhecido João Goulart, adotou então um governo de populismo radical e com fortes ideias de reforma agrária, esse posicionamento desagradou muito os conservadores e esse desagrado gerou uma espécie de movimento anti-“Jango” que desembocaria no golpe militar de 1964.

 O Brasil experimentou a democracia por um curto e conturbado período, entre 1950 com a eleição de Vargas a 1964 com o golpe militar, que implantou uma ditadura que duraria ate 1985.

A redemocratização

O processo de redemocratização do Brasil começa com o presidente Ernesto Geisel, dando inicio a um processo de abertura democrática que chamou de “lenta, gradual e segura”, porem a rejeição à ditadura militar e ao governo de Figueiredo (seus sucessor) tornou o processo bem mais rápido, assim em 1984 é feita um eleição indireta, elegendo Tancredo Neves levando o primeiro civil a presidência do Brasil desde 1964, Tancredo Neves, não chega a assumir a presidência, pois vem a falecer antes, deixando a cargo de José Sarney a presidência do Brasil.

Em 1988 o processo de redemocratização seria consolidado pela promulgação da constituição de 88, assegurando novamente os direitos democráticos aos cidadãos. E em 1989 são feitas eleições diretas, onde é eleito presidente, Fernando Collor de Mello que implementa o chamado plano Collor.

Em 1992 o Brasil da um importante passo no sentido da maturação e sua democracia, quando através de processo de impeachment força o presidente Collor a renunciar do seu cargo, assumindo seu vice Itamar Franco novas eleições são feitas em 1994 quando Fernando Henrique Cardoso é eleito. No seu governo outro avanço significativo e feito no sentido da maturação democrática brasileira, que através de uma mudança da constituição, permite pela primeira vez no Brasil que um presidente seja reeleito.

Já em 2002 outro passo é dado com a eleição do sindicalista e metalúrgico Luis Inácio lula da Silva. Porem vários problemas ainda perduram no Brasil como a questão da desigualdade social acentuada e alto índice de pobreza, portanto cabe ainda questionar para que estar sendo feita a democracia atual: para a elite ou para as massas?

 

 

Referenciais Bibliográfica:

 

FAUSTO, Boris. Período Democrático: Youtube. Disponivel em: <http:// http://www.youtube.com/watch?v=b7W9pR9vzxA>. Acessado em: 22/nov/2012

FAUSTO, Boris. Redemocratização: Youtube. Disponivel em: <http:// http://www.youtube.com/watch?v=a4nuiRG52W4&feature=relmfu> Acessado em: 22/nov/2012


JAGUARIBE, Helio. Sociedade e política: um estudo sobre a atualidade brasileira – rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1985

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A consciência de tornar-se Cientista Social

Por Fátima Barreto
 
Ao me inscrever no vestibular para “Ciências Sociais”, tinha em mente o desejo de tornar-me uma antropóloga, ou socióloga, ou talvez uma cientista política. Logo no primeiro semestre fui gostando mais dos temas relativos à antropologia, talvez por perceber que tinham uma relação mais próxima com a evolução dos grupos humanos com suas culturas.

Mas ao final do segundo semestre pude entender que ser profissional das Ciências Sociais, significa estudar profundamente as origens, o desenvolvimento, a organização, o funcionamento das sociedades e culturas humanas. Estuda os fenômenos, as estruturas e as relações que caracterizam as organizações sociais e culturais.

Então, depois da formação a sua prática profissional passa pela pesquisa e análise dos movimentos sociais, dos conflitos populacionais, a construção de identidades, a formação das opiniões. Pesquisa costumes e hábitos, pesquisa e analisa as relações entre indivíduos, as famílias, os grupos e as instituições. Desenvolve e utiliza um conjunto variado de técnicas e métodos de pesquisa para o estudo das coletividades humanas, interpreta os problemas da sociedade, da política e da cultura.

Vendo por esse lado, o cientista social é um profissional de extrema importância na sociedade. Recentemente fiz uma pesquisa nos bancos de estágios e empregos em alguns jornais e na internet e fiquei surpresa de ver que nenhuma empresa ou órgão público, tinha na sua lista de profissões procuradas para contratação do  cientista social e nem o estudante de ciências sociais.

Li um artigo do sociólogo Simon Schwartzman, apresentado à mesa redonda no XIV Encontro Anual da ANPOCS em 1990 na cidade de Caxambu no Rio de Janeiro, sobre a “Teoria e Método e as Ciências Sociais Brasileiras da Atualidade”, publicado em A Redescoberta da Cultura, EDUSP, 1997. Esse artigo chamou a minha atenção na análise que faz sobre a “A crise recorrente das Ciências Sociais” que diz o seguinte:

Ninguém está contente com as ciências sociais. Para uns, elas são muito teóricas, abstratas, e não contribuem para resolver os problemas do país; para outros, predomina a pobreza teórica, a falta rigor analítico, a preocupação desordenada com questões imediatistas. Existem os que se queixam da secura dos conceitos abstratos, da frieza dos números, buscado resgatar a força da sensibilidade artística e literária; outros deploram o vale tudo da intuição e dos bons sentimentos. Há os que criticam o elitismo dos cursos de pós-graduação, suas teses intermináveis e incompreensíveis; e os que lamentam a massificação dos cursos de graduação, com a indigência dos currículos e a má qualidade dos estudantes. Há os que criticam o uso abusivo do inglês, o jargão tecnocrático, a proliferação das citações; e os que lamentam o provincianismo de uma ciência social que se isola em uma língua secundária, usa idéias de segunda mão sem conhecer as fontes e não dialoga com o resto do mundo.
É provável que a insatisfação seja maior hoje do que em outros tempos, e mais intensa no Brasil do que na Europa ou nos Estados Unidos. Mas é óbvio que não se trata de um fenômeno novo, nem exclusivamente nacional. As ciências sociais sempre viveram em um estado mais ou menos permanente de "crise", e discussões intermináveis sobre métodos, abordagens e discursos, combinadas com exegeses igualmente intermináveis sobre fundadores, costumam ser tomadas como indicadores do pouco amadurecimento e consolidação do campo. Talvez não seja possível acrescentar muita coisa a esta história, além de reafirmar nossas preferências em relação a alguns destes dilemas. Pode ser útil, no entanto, olhar com algum detalhe o contexto desta "crise", à luz das contribuições mais recentes da sociologia da ciência.
[1]

Outro aspecto importante também foi avaliado pelo sociólogo sobre o que é próprio as ciências sociais no Brasil.

O que talvez mais distinga as ciências sociais em um contexto como o brasileiro é a exiguidade de seu campo de atuação, e a debilidade de seus vínculos com o sistema universitário. As ciências sociais mais tradicionais, a história e a geografia, se expandiram a partir dos anos 40 para atender ao magistério de nível médio, dentro de uma tradição francesa que não conseguiu se renovar antes de sucumbir à deterioração dramática que sofreu o ensino secundário no país. As ciências sociais em sentido mais estrito se desenvolveram ao redor de pequenos grupos ou personalidades para as quais o campo educacional e universitário, e a função educativa, nunca foi o mais importante, ou o mais significativo. Mesmo na Universidade de São Paulo, a primeira universidade brasileira a implantar as ciências sociais, os "role models" que mais atraíam os alunos eram os de Antônio Cândido, intelectual polivalente e avesso aos rótulos departamentais, e os dos intelectuais politizados e marxistas do famoso "grupo do Capital". Hoje a maioria dos cientistas sociais brasileiros mais conhecidos ensinam em universidades, mas preferem desenvolver suas pesquisas em institutos privados, e dificilmente entram em contato com os alunos dos cursos de graduação.
O espaço que este grupo restrito de cientistas sociais encontrou foi dado sobretudo pela imprensa diária, pelos partidos políticos mais militantes, e pelas editoras que publicam para o leitor mais intelectualizado. Uma consequência importante desta situação foi a restrição de suas temáticas e formas de trabalhar e escrever. As ciências sociais (como, aliás, a maioria dos campos de conhecimento) não tendem à convergência em um paradigma único, e sim à divergência e diversificação progressivas.

Finalmente, apesar de ser preocupante toda essa situação do cientista social principalmente em nosso país, não há por que desanimar sobre como vamos atuar depois da formação. A crise existe em todas as profissões, a crise existe na sociedade capitalista e desigual isso é parte de um sistema que gera exclusões nos mais diversos níveis sociais e econômicos, que precisa ser revisado e modificado e isso será possível, a partir de uma educação de qualidade oportunizada para todos. É dessa forma que os indivíduos aprendem a tomar consciência dos seus valores. Acredito que cada formação está na qualidade do que se aprende durante a graduação e a responsabilidade e dedicação com o que escolhemos fazer na vida, apesar das dificuldades e diversidades.

 
Por: Fátima Barreto – Discente no 3º semestre do Bacharelado em Ciências Sociais - UNEB


[1] Schwartzman, Simon - A Redescoberta da Cultura - O Lugar das Ciências Sociais; Trabalho apresentado à mesa redonda sobre "Teoria e Método e as Ciências Sociais Brasileiras da Atualidade", XIV Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, outubro de 1990, e no seminário "Cientistas Sociais Hoje", Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 29 de novembro de 1990. Publicado em A Redescoberta da Cultura, EDUSP, 1997. Disponível em: http://www.schwartzman.org.br/simon/redesc/csociais.htm

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Alain Badiou: “Não renuncio à ideia do comunismo”



 
Por Eduardo Febbro
Página12, extraído de CubaDebate


 
Badiou tem sua própria visão sobre a experiência de luta da esquerda e da tentativa de edificação do comunismo no século 20, com a qual se deve debater e da qual se pode divergir na forma e no fundo. Contudo, sua crítica às concepções dominantes na sociedade capitalista revelam um pensamento lúcido e cortante. E sua proclamação sobre o ideal do comunismo não despertam senão convicções transformadoras e uma acesa esperança no futuro da humanidade e na realização da felicidade.
A figura esbelta, a firmeza juvenil da voz e o aperto de mãos sólido – pouco comum na França – introduzem o personagem real de Alain Badiou. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora das fronteiras de seu país. Sua obra, extensa e sem concessões, abarca uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama “o materialismo democrático”, quer dizer, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil. Badiou não renunciou nunca a defender um conceito que muitos crêem queimado pela história: o comunismo.
Em sua pena Badiou fala, dito de outra maneira, da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista” não propriamente do sistema comunista em si. Segundo o filósofo francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado. A ideia comunista “ainda está, historicamente, em seus inícios”, diz Badiou.

O horizonte de sua filosofia é polifônico: seus componentes não são a exposição de um sistema fechado, mas um sistema metafísico exigente que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel - e quatro dimensões da existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das democracias contra os pobres”. O filósofo francês é um excelso teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário. Badiou convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia da República, reatualiza as formas possíveis e não aceitas de oposição e põe no centro da evolução social a relegitimação das lutas sociais.

Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazio. Com mais de 70 anos, Badiou introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovente que acaba de sair na França e no qual o autor de O ser e o acontecimento define o amor como uma categoria da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos possam plasmar para viver.
A “ideia” e o “materialismo democrático”

- Você defende um princípio básico de nossa inscrição na existência, do qual se desprendem também nossos compromissos políticos: uma vida sem ideias não é uma vida.

- A verdadeira pergunta da filosofia consiste em saber o que é uma vida verdadeira, o que é viver, o que é o destino. Mas a filosofia deve aportar respostas mínimas a estas perguntas. Minha resposta, que é simultaneamente uma hipótese e uma conclusão, é que a verdadeira vida é uma via que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outra maneira, uma vida que aceita ser outra coisa que uma vida animal. Em todas as situações sempre persiste a vontade de querer algo e essa vontade só tem sentido em relação com uma vontade de transformação.
 
- Como se inscreve essa ideia da ideia em plena ditadura do que você chama “o materialismo democrático”? Em suma, como existir, com que ideia, em um mundo onde tudo tem forma de produto?

- Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se um regime de existência no qual tudo deve ser transformado en produto, em mercadoria, incluídos os textos, as ideias, os pensamentos. Marx tinha antecipado isto muito bem: tudo é mensurável segundo seu valor monetário. O que é então uma vida sob o signo da ideia em um mundo como este? Faz falta uma distância com a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada apenas com a vontade, é necessário que algo aconteça conosco, um acontecimento que nos leve a tomar posição frente ao que ocorreu. Pode ser um amor, um levantamento político, uma decepção, enfim, muitas coisas. Ali se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo que não estará à disposição do mundo tal como ele é, com sua lei de circulação mercantil, mas por um elemento novo de minha experiência.
A “ideia comunista”

- Você é um dos poucos pensadores que ainda defendem isso que você chama “a ideia comunista”. Você apresenta o comunismo como uma ilusão atual.

- Sei muito bem que algumas tentativas que se reivindicaram comunistas fracassaram porque não conseguiram criar o mundo novo que pretendiam e terminaram provocando danos consideráveis e situações terríveis. Temos duas opções: ou dizemos que essa hipótese comunista de um mundo que não estaria regulado pela mercadoria, o produto, não pode ser realizada, então nos resignamos ao mundo tal como é; ou mantemos a hipótese comunista. Se a mantemos também há que conservar l palavra. Se da experiência histórica sacamos a conclusão de que é preciso abandonar a palavra, isso seria um retrocesso não necessário. Podemos fazer nosso próprio balanço do que ocorreu no século 20 a partir da possibilidade de redefinir o que é o comunismo como possível porvir. Essa é minha escolha. Sei que se trata de um trabalho longo que requer muita reflexão e que será mais mundial do que antes. A primeira batalha consiste em manter a força e o significado dessa palavra.
 
- O que se pode recuperar, o que se pode voltar a ler, do que foi com todo um naufrágio real na prática do comunismo? Que mensagem ainda existe na idéia comunista?

- Creio que podemos voltar ao que o comunismo queria dizer não só para Marx mas para muitos revolucionários do século 19. Para eles, o comunismo tinha um sentido comum que era a ideia de uma sociedade extraída do princípio do interesse, quer dizer, uma sociedade que não está governada pelo fato de que um homem persegue seu interesse mas pela ideia da associação dos homens. É essa associação que define os projetos ou as metas coletivas. No século 20, essa idéia se converteu na de um Estado todo poderoso que resolve todos os problemas apresentados à sociedade. Entre a definição do século 21 e a do 20 há uma enorme distância.
 
- O que ocorreu entre as duas?

- A obsessão do poder. As organizações operárias, militantes, revolucionárias, que tinham sido esmagadas várias vezes no século 19 se obsedaram com a ideia do poder e a pergunta “como vencer?”. Houve duas alternativas a essa convicção: estão os que se uniram à democracia parlamentar ordinária com a ideia de vencer fazendo-se eleger. Mas, claro, foram eleitos e não mudaram nada, o mundo continuou sendo o mesmo. Do outro lado, estão is que se lançaram na organização da sublevação armada. Mas, lamentavelmente, o fizeram mediante a militarização violenta da ação política que desembocou em Estados militarizados que resolviam os problemas com a violência. Chegamos de alguma maneira a um final porque nem a hipótese da via pacífica e eleitoral, nem a hipótese de um aparato estritamente militar encarregado de resolver os problemas políticos conduziram ao comunismo segundo o sentido original do termo. E o problema da ação política atual é totalmente obscuro. Assistimos a uma mundialização capitalista desenfreada e nela as forças políticas dão mostras de mais debilidade do que de força.
A impunidade e a violência

- Seja qual for a situação mundial em que nos encontremos, na África, no Oriente Médio, na Ásia, na América Latina ou nas democracias ocidentais, enfrentamos a mesma indolência, a mesma selvageria, a mesma impunidade, a mesma assimetria por parte dos poderes, a mesma violência.
- Estou profundamente convencido de que a forma na qual a sociedade está organizada em escala planetária alenta e cria estímulos à violência. A razão principal radica em que, para o sistema, a realidade humana é a competição. A ideia de Hobbes segundo a qual o homem é um lobo para o homem constitui a convicção profunda de nossa sociedade. Por essa razão gera violência constante: a sociedade dá o direito geral para que, em seu próprio interesse, se pisoteie os demais. A imprensa mais ordinária faz o elogio dessa violência. Os jornais falam de como tal banco esmagou outro, como as pessoas foram expulsas, etc., etc. Isso, dizem, é a vida, a competição. Mas é preciso pagar o preço. Enquanto não enunciemos que as sociedades devem ser construídas com base na associação e não na competição, permaneceremos no elemento primordial da violência. Não digo que a violência vai desaparecer. A sociedade estimula sistematicamente a violência e logo se vê obrigada a combate-la com uma repressão terrível. Como a violência está constantemente incitada, é preciso um aparato policial para controlá-la. O resultado é que terminamos agregando à violência social a violência do Estado. Devemos mudar os pilares da existência coletiva. Mas o ser humano é capaz de outra coisa diferente de toda essa violência: é capaz de entrega, de amor. Tem uma dupla capacidade. Pode ser um animal de competição mas também um animal altruísta, interessado na ação coletiva, capaz de encarnar ideais, pode ser um namorado ou um cientista desinteressado. Saber que aspecto do ser humano alentamos é uma decisão fundamental.
 
- No seio dos sistemas políticos ocidentais há algo que se degradou profundamente no último quarto de século. Essa evolução drástica está perfeitamente retratada nos seus livros: O Primeiro Manifesto pela Filosofia, dos anos 1980, e o Segundo Manifiesto, publicado no ano passado.

- O Primeiro Manifesto recolhe as últimas esperanças do mundo de antes. Mas nos últimos vinte anos houve coisas essenciais que mudaram, entre elas a hegemonia do capitalismo liberal competitivo e violento. Interveio também outra coisa: uma sorte de clara cumplicidade com esse sistema por parte dos intelectuais, inclusive os franceses. Foi uma forma de dizer que não se pode fazer nem esperar outra coisa, que o mundo natural é assim. Isto se acelerou com o desaparecimento da União Soviética e dos Estados socialistas. Em minha opinião estes já tinham morrido há muito. Sua experiência já não tinha mais força, já não propunha nada de novo à humanidade. O certo é que o desaparecimento completo de tudo isso foi vivido pelo capitalismo liberal como uma vitória que lhe abria o espaço do mundo inteiro para expandir-se. As formas de violência e de cumplicidade intelectual com essa violência se desenvolveram muito. Creio que isto se iniciou nos finais dos anos 1970. A nova figura fundamental é que a opinião, em vez de estar drasticamente dividida, é maciçamente consensual. Este resultado muda o horizonte, a perspectiva de um filósofo. O filósofo é aquele que sempre luta contra as opiniões dominantes, quer dizer, as opiniões do poder. Hoje o combate é muito mais complexo e singular do que o dos anos 1960. Naqueles anos os filósofos críticos e comprometidos politicamente dominavam o cenário intelectual. Isso pertence ao passado. Hoje são os cães de guarda dos que mandam. Durante os anos Bush, estivemos numa combinação extraordinária de violência e de mentiras. No fundo, os ocidentais, inclusive a população, foram culpados porque aceitaram tudo isso. É preciso sair disto. A humanidade não poderá continuar nesse caminho, sob pena de ir rumo a sua eliminação. Trata-se de reconstruir uma visão do mundo e da ação afastada deste horror.
A ilusão tecnológica

- A tecnologia faz parte também desta sociedade, desta violência. As novas tecnologias instauraram uma sorte de ilusão igualitária, que é muito chata, que parece dizer em filigrana: já que estamos conectados, todos somos iguais. Porém, não há nada mais virtual que essa igualdade. A realidade está presente, as diferenciações são patentes, o pensamento tecnológico contaminou o pensamento humano.

- A tecnologia é a realização de uma ideologia que existia antes. Creio que é a ideologia que cria a tecnologia, e não ao contrário. Esta falsa concepção da igualdade é muito antiga. A desigualdade atual considera de forma abstrata que os diferentes indivíduos são iguais. Pretende-se fazer crer que os individuos têm a seu alcance o mesmo sistema de possibilidades. As pessoas não têm a mesma realidade, mas se argumenta que contam com as mesmas possibilidades. É a mitologia com a qual se dizia que nos Estados Unidos o vendedor de jornais pode converter-se num milionário e, por conseguinte, é igual a qualquer milionário. Com esse argumento, a única diferença radica em que um realizou a possibilidade de ser milionário e o outro não. Há então uma concepção tradicional e falaz da igualdade própria ao mundo burguês e competitivo. Todos podemos competir! Essa é a igualdade competitiva. Mas penso que a tecnologia da Internet e a conexão universal são a realização material e tecnológica dessa ilusão igualitária. Essa ilusão está muito ligada ao materialismo democrático porque inclui a ideia de que todas as opiniões valem e são iguais. Estamos conectados e o que eu digo vale tanto como o que outro diz! Desde que as coisas circulem, elas têm valor. Isso é falso. O real continua sendo violentamente desigual, competitivo, brutal, indolente. Não basta ter uma máquina na qual possamos dizer o que pensamos para aceder à igualdade. Na realidade, quanto mais se expande esse tipo de igualdade ilusória, menos poder têm as pessoas. Observe a crise que vivemos: estávamos todos conectados e de pronto irrompeu a realidade para nos dizer: Atenção, de uma hora para outra tudo pode ruir! A crise veio recordar que esta sorte de euforia igualitária na qual estávamos era artificial. No mundo competitivo a igualdade é sempre artificial. E essa igualdade artificial pode ser uma igualdade tecnológica justamente porque a tecnologia é um artifício.
A reinvenção do amor

- Você é um dos poucos filósofos contemporâneos que introduziu em sua reflexão algo único, quer dizer o amor. Você repete freqüentemente que é preciso reinventar o amor. Como se faz isso?

- O amor é um gesto muito forte porque significa que é necessário aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige um tipo de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que esse outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que todo isto é possível, isto nos prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. Essa sociedade bem que gostaria de substituir o amor por um tipo de regime comercial de pura satisfação sexual, erótica, etc. Então, o amor deve ser reinventado para defendê-lo. O amor deve reafirmar seu valor de ruptura, seu valor de quase loucura, seu valor revolucionário como nunca o fez antes. Não se deve deixar que o amor seja domesticado pela sociedade atual - que sempre busca domesticá-lo-. Em outros tempos, as sociedades clericais e tradicionais buscaram domesticá-lo pelo matrimônio e a família. Hoje se busca domesticar o amor com uma mescla de pornografia livre e de contrato financeiro. Mas devemos preservar a potência subversiva do amor e afastá-lo dessas ameaças. E isso é extensivo a outras coisas: a arte também deve afastar-se da potência do mercado, a ciência igualmente. Ali onde há um pensamento humano ativo e desinteressado há um combate para libertá-lo dos interesses.
 
- Você também diz que o amor é um processo de verdade.

- O amor traz à tona o que é uma diferença. No amor aceitamos pormo-nos a dois para explorar não o que acreditavam os românticos, quer dizer, a fusão, mas o que é aceitar a diferença do outro, aceita-la apaixonadamente. O amor é todo o contrário do individualismo que nos propõem. O que nos propõem é uma soberania do indivíduo, mas na realidade o indivíduo só é soberano de seus próprios interesses. Enquanto fazemos algo interessante, deixamos de ser soberanos. Se realizamos uma demonstração matemática os outros matemáticos virão verificar se é certa, dependemos deles. No amor ocorre o mesmo. A soberania é compartilhada com a presença do outro. A idéia da soberania individual é pobre porque exclui as atividades interessantes da vida humana. O indivíduo se torna criador quando aceita deixar de ser soberano.
 
- O que resta a um casal enamorado num mundo como este? A revolta, a música, a poesia, o sexo, a indiferença, a violência, a sabedoria? Quais são os eixos de uma emancipação positiva em face desta máquina infernal que é o mundo?

- Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é manter as mãos sobre o timão da experiência que estamos levando a cabo, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja apenas um, é preciso tratar de não ceder. E para não ceder devemos ser fiéis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz “cuidado, defenda-se, não se deixe abusar pelo outro”. Com isso se nos está dizendo “voltem ao comércio ordinário”. Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o timão voltado para o rumo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que nos ocorre. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta. Não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com operários e pomos em marcha uma dinâmica, se podemos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma idéia fundamental.
 
 
Fonte: CubaDebate
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SOBRE CORDAS, PATROCINIOS,CARNAVAL, ESTRUTURA DE CLASSES EM SALVADOR E OUTROS TEMAS LEVES.........(SEXTA DE CARNAVAL, 2013)

Javier Alfaya


Apartemos a demagogia e a superficialidade de análise. Mantenhamos a raiva justa contra os absurdos que se misturam com o brilho do carnaval .......

Lembremos o Olodum, o Ylê, o Alerta Geral (vi ontem, primeiro dia, quinta, no Campo Grande), o" Samba e Amor " (de Nelson Rufino), o Alvorada , etc, etc, etc, TODOS tem corda ......vamos pensar melhor nisso ....como garantir (pagar) músicos, aluguel de trio, estruturas outras, abadás, etc., sem cobrar? mesmo dos blocos-afro mais conhecidos aos menos conhecidos querem (e precisam !) cobrar para cobrir custos e remunerar seus artistas, trabalhadores, fornecedores, etc..Surge a questão ...quem pagaria tudo isso?...o estado? a prefeitura? a união? ..é possível? seria correto?  E se nos anos que se seguem o numero de blocos de todo tipo for crescendo? quem pagaria isso? haveria limitação? quantidade pré definida? Botemos blocos e trios na rua que o orçamento publico garante tudo!!! Onde existe isso? Que delírio carnavalesco é esse? Vamos pensar melhor .

Vamos lá: o carnaval gera uma economia no âmbito do popular, além de noutros círculos, óbvio. Gera um processo de circulação de algum (mas fundamental ) ganho financeiro nos bairros de trabalhadores assalariados, para os biscateiros, semi-empregados, essa esmagadora maioria que não mora nos circuitos atuais da folia. Essa é a maioria negra, ou branca mas que de tão pobre é negra ou quase negra (música HAITÍ de Gil e Caetano em “Tropicália 40 anos” , genial !) Mesmo para segmentos de maior renda assalariada, o problema que se coloca, é como reorganizar o carnaval para que a grande maioria que trabalha para a festa seja melhor remunerada. Seja ela mulata, negra, branca, ou de qualquer classificação que se queira. A festa mais participativa e mais democrática da cidade depois da Lavagem do Bonfim, precisa ser mais democrática financeiramente falando para seus criadores populares, suas organizações correspondentes, seus compositores e todo tipo de profissional da área ou não que garante que existe esse grande fenômeno. Eis a questão. Isso implica em debater (e mudar) a grade de desfile (horário), direito de arena (imagem na tv), captação de maiores subsídios, etc,etc,  para os que por alguma razão não conseguem mais recursos.

A corda surge aí, porque uma senhora (conversei com algumas professoras na quinta feira, abertura do carnaval) não podem pagar algo para desfilar dentro de um espaço com gente fantasiada como elas? Quem lhes pagaria o abadá, o chapéu de palhinha? As professoras a quem me refiro estavam todas em grupo, orgulhosas e alegres aguardando o trio de Nelson Rufino (com cordas), prontas para entrar no asfalto do Campo Grande. Tinham todas mais de 50 anos, seguramente, algumas mais de sessenta, quem lhes garantiria não tomar empurrão? ter os bolsos invadidos por mãos bobas? como fariam para ter um espaço para sambar e não serem só empurradas por uma multidão compacta atrás? Como garantir o espaço? Como garantir um mínimo de conforto? de possibilidade de espraiamento? Surge aí o lance das cordas, que tempo atrás tinham outra função (mais de segurança) para dos foliões relativamente às rodas dos trios e separação do publico em relação aos músicos...umas três décadas para trás....são outros quinhentos ..

A discussão não é cordas ou não cordas, é mais ampla . No Rio de Janeiro os blocos são de percussão e sopro, às centenas, talvez mais de dois ou tres milhares, em muitos bairros, grupos organizados, espontâneos ou não, não há carro de som grande na quantidade de salvador, o custo é baixo, é outro formato. A juventude, os vizinhos, os sambistas de fora das escolas, as escolas miúdas locais desconhecidas, os blocos de percussão, os de sopro, os mistos, os de rock e pop, os pequenos grupos fantasiados, etc. Todo esse universo acontece por diversos motivos, o Rio é um universo artistico-cultural de especial potência, é a cidade mais brasileira e mais para fora do país, além do mais tem quase seis milhões de habitantes, mais investimentos, mais renda espalhada e de uns anos para cá saindo da decadência econômica.... Temos que abordar o assunto com mais vagar e informação. Seguramente o carnaval do Rio tenha voltado a ser o maior do Brasil e pelo viés da diversidade, tudo indica que supera o nosso e o de Recife. Quando a Av. Rio Branco entope, com o MONOBLOCO e agora com PRETA GIL, entre outras dezenas de agremiações, o publico compacto, numa reta de mais de 4 quilômetros (da Candelária ao Aterro) resulta num milhão de pessoas, segundo cálculos de especialistas da Policia Militar e de outras fontes!  Depois opinarei sobre disso. Deixemos o orgulho regionalista e bairrista de lado, isso vale para todo mundo, de carioca,  paulista, recifense, olindense, soteropolitano, de qualquer canto deste país que cada vez mais tem mais carnavais ... outro fenômeno a levar em conta. Vejamos o carnaval de Ouro Preto, Manaus, São Luis , Aracajú , Fortaleza, do interior do Brasil , de Brasília (sim existe e é muito criativo e participativo..), das cidades interioranas baianas e de outras paragens ......é um fenômeno cultural, comportamental, mercadológico, artístico em franco processo de expansão.

Voltemos a nossa Bahia ,voltando a Salvador .Quem bancaria a estrutura que historicamente se criou aqui ?
A maior democratização e diversificação do carnaval ( não concordo que seja antidemocrático no nível que alguns argumentam ), vai se dar por outros caminhos .

A renovação estética e valorização da criação artística mais radical e ousada, a valorização da cultura negra(...mas não só!!!.) , a remuneração justa dos que trabalham, etc, é uma pauta possível de ser abordada e resolvida, mas para tal tem que tirar algumas falsas verdades do caminho, e deixar o asfalto livre para a alegria, a franqueza de argumentos, o resguardo do interesse publico e assim conseguirmos os saltos de qualidade que o carnaval de Salvador precisa. Axé ! Bom carnaval !!
 
 
Texto de Javier Alfaya - foi vereador e deputado estadual do PC do B (transcrito do Facebook) 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Lua Cheia



   
 
Então hoje me despeço novamente

Que por mais linda que seja, é singela

Transformava noites até então vazias

Em espetáculos de luz, inspirando magia



Despertando os sentimentos trancados

Fazendo-me desligar da monótona correria

Para que possa, simplesmente admira-la

Em sua perfeita maestria singular



Agora aqui estou, olhando cada dia pela janela

Com a esperança que ela volte a brilhar

Até o momento em que volte a me visitar

Para terminarmos as conversas de outrora



Como um simples copo d’água

Quando o seu limite já não é o suficiente

Novamente encarno o mesmo poeta

Transbordando ao te olhar.
 
 
 
Poesia de Patricio Freitas - Graduando do Curso de Ciências Sociais da UNEB

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A ignorância da sociedade do conhecimento

*Robert Kurz
 
 
Conhecimento é poder — trata-se de um velho lema da filosofia burguesa moderna, que foi utilizado pelo movimento dos operários europeus do século 19. Antigamente conhecimento era visto como algo sagrado.Desde sempre homens se esforçaram para acumular e transmitir conhecimentos. Toda sociedade é definida, afinal de contas, pelo tipo de conhecimento de que dispõe. Isso vale tanto para o conhecimento natural quanto para o religioso ou para a reflexão teórico-social. Na modernidade o conhecimento é representado, por um lado, pelo saber oficial, marcado pelas ciências naturais, e, por outro, pela “inteligência livre-flutuante” (Karl Mannheim) da crítica social teórica. Desde o século 18 predominam essas formas de conhecimento.
Mais espantoso deve parecer que há alguns anos esteja se disseminando o discurso da “sociedade do conhecimento” que chega com o século 21; como se só agora tivessem descoberto o verdadeiro conhecimento e como se a sociedade até hoje não tivesse sido uma “sociedade do conhecimento”. Pelo menos os paladinos da nova palavra-chave sugerem algo como um progresso intelectual, um novo significado, uma avaliação mais elevada e uma generalização do conhecimento na sociedade. Sobretudo se alega que a suposta aplicação econômica do conhecimento esteja assumindo uma forma completamente diferente.
Filosofia das mídías Bastante euforia é o que se apreende por exemplo do filósofo das midias alemão Norbert Bolz: “Poder-se-ia falar de um big-bang do conhecimento. E a galáxia do conhecimento ocidental se expande na velocidade da luz Aplica-se conhecimento sobre conhecimento e nisso se mostra a produtividade do trabalho intelectual. O verdadeiro feito intelectual do futuro está no design do conhecimento. E, quanto mais significativa for a maneira como a força produtiva se torne inteligência, mais deverão convergir ciência e cultura. O conheciinento é o último recurso do mundo ocidental”.
Palavras fortes. Mas o que se esconde por trás delas? Elucidativo é talvez o fato de que o conceito da "sociedade do conhecimento” esteja sendo usado mais ou menos como sinônimo do de “sociedade da informação”. Vivemos numa sociedade do conhecimento porque somos soterrados por informações. Nunca antes houve tanta informação sendo transmida por tantos meios ao mesmo tempo. Mas esse dilúvio de informações é de fato idêntico a conhecimento? Estamos informados sobre o caráter da informação? Conhecemos afinal que tipo de conhecimento é esse?
Na verdade o conceito de informação não é, de modo nenhum, abarcado por uma compreensão bem elaborada do conhecimento. O significado de “informação” é tomado num sentido muito mais amplo e refere-se também a procedimentos mecânicos. O som de uma buzina, a mensagem automática da próxima estação do metrô, a campainha de um despertador, o panorama do noticiário na TV, o alto-falante do supermercado, as oscilações da Bolsa, a previsão do tempo... tudo isso são informações, e poderíamos continuar a lista infinitamente.
Conhecimento trivial Claro que se trata de conhecimento, também, mas de um tipo muito trivial. É a espécie de conhecimento com a qual crescem os adolescentes de hoje. Já aqueles na faixa dos 40 anos estão tecnológica-comunicativamente armados até os dentes. Telas e displays são para esses quase partes do corpo e órgãos sensoriais. Eles sabem que informações têm que ser observadas para acessar a internet ou como filtrar tais informações da rede, por exemplo, como se faz o “download” de uma canção de sucesso. E um dos meios de comunicação prediletos dessa geração é por escrito, do “Short Message Service” ou, na forma abreviada, o SMS que aparece no display do celular. O máximo de comunicação está limitado ali a 160 caracteres.
Já é estranho que o armamento tecnológico de ingenuidade juvenil seja elevado à condição de parte integrante de um ícone social e seja associado ao conceito de “conhecimento”. Em termos de uma “força produtiva inteligência” e “feito intelectual do futuro”, isso é um pouco decepcionante. Mais próximos da verdade estaremos talvez se compreendermos que se entende por “inteligência” na sociedade do conhecimento ou da informação. Assim, numa típica nota da imprensa econômica publicada na primavera de 2001, lê-se: “A pedido da agência espacial canadense, a empresa Tactex desenvolveu em British Columbia tecidos inteligentes. Em tiras de tecido são costurados em série minúsculos sensores que reagem à pressão. Primeiramente, o tecido da Tactex deve ter seu desempenho testado como revestimento de bancos de automóveis. Ele reconhece quem se sentou no banco do motorista...O banco inteligente reconhece o traseiro de seu motorista”.
Para um banco de automóvel, trata-se, seguramente, de um feito grandioso. Temos de reconhecer. Mas, ora, não pode ser considerado a sério um paradigma para o “feito intelectual do futuro”. O problema reside no fato de que o conceito de inteligência da sociedade da informação — ou do conhecimento — está muito especificamente modelado pela chamada “inteligência artificial”. Estamos falando de máquinas eletrônicas que por meio de processamento de dados têm capacidade de armazenamento cada vez mais alta, para simular atividades rotineiras do cérebro humano.
Objetos inteligentes Há muito que se fala na “casa inteligente”, que regula sozinha a calefação e a ventilação, ou na “geladeira inteligente”, que encomenda no supermercado o leite que acabou. Da literatura de terror, conhecemos o “elevador inteligente”, que infelizmente se tornou maligno e atentou contra a vida de seus usuários. Novas criações são o “carrinho de compras inteligente”, que chama a atenção do consumidor para as ofertas especiais, ou a “raquete inteligente”, que com um sistema eletrônico embutido permite ao tenista um saque especial, muito mais potente.
Será esse o estágio final da evolução intelectual moderna? Uma macaqueação de nossas mais triviais ações cotidianas por máquinas, conquistando uma consagração intelectual superior? A maravilhosa sociedade do conhecimento aparece, ao que tudo indica, justamente por isso como sociedade da informação, porque se empenha em reduzir o mundo a um acúmulo de informações e processamentos de dados e em ampliar de modo permanente os campos de aplicação destes. Estão em jogo aí sobretudo duas categorias de “conhecimento”: conheci- mento de sinais e conhecimento funcional. O conhecimento funcional é reservado à elite tecnológica que constrói, edifica e mantém em funcionamento os sistemas daqueles materiais e máquinas “inteligentes”. O conhecimento de sinais, ao contrário, compete às máquinas, mas também a seus usuários, para não dizer: seus objetos humanos. Ambos têm de reagir automaticamente a determinadas informações ou estímulos. Não precisam, eles mesmos, saber como essas coisas funcionam, mas precisam processar dados “corretamente".
Comportamento programáve1 Tanto para o comportamento maquinal quanto para o humano, na sociedade do conhecimento a base é dada, portanto, pela informática, que serve para programar seqüências funcionais. Lida-se com processos descritíveis e mecanicamente reexecutáveis, com meios formais, por uma seqüência de sinais (algoritmos). Isso soa bem para o funcionamento de tubulações hidráulicas, aparelhos de fax e motores de automóveis; e tudo bem que haja especialistas para isso. Porém, quando também o comportamento social e mental de seres humanos é representável, calculável e programável, estamos diante de uma concretização de visões de terror das modernas utopias negativas.
Essa espécie de conhecimento social de sinais lembra bem menos vôos audaciosos do que, isso sim, o famoso cão de Pavlov. No começo do século 20, o fisiologista Ivan Petrovitch Pavlov havia descoberto o chamado reflexo condicionado. Um reflexo é uma reação automática a um estímulo externo. Um reflexo condicionado ou motivado consiste no fato de que essa reação também pode ser desencadeada por um sinal secundário aprendido, que esteja ligado ao estímulo original. Pavlov associou o reflexo salivar inato de cães com a visão de ração por meio de um sino e pôde finalmente desencadear esse reflexo também ao utilizar o sino isoladamente.
Ao que parece, a vida social e intelectual na sociedade do conhecimento — aliás, da informação — deve ser levada a um caminho de comportamento que corresponda a um sistema de reflexos condicionados: estamos sendo reduzidos àquilo que temos em comum com cães, pois o esquema de estímulo-reação dos reflexos tem tudo a ver com o conceito de informação e “inteligência” da cibernética e da informática. O conjunto de nossas ações na vida é cada vez mais monitorado por dígitos, trilhas, clusters e sinais de todo tipo. Esse conhecimento de sinais, o processamento reflexo de informações, não é, porém, exigido somente no âmbito tecnológico, mas também no mais elevado nível social e econômico. Assim, por exemplo, se é como se diz, os governos, os “managers”, os que têm uma ocupação, enfim todos devem permanentemente observar os “sinais dos mercados”.
Esse conhecimento miserável de sinais não é, na verdade, conhecimento nenhum. Um mero reflexo não é, afinal, nenhuma reflexão intelectual, mas seu exato contrário. Reflexão significa não apenas que alguém funcione, mas também que esse alguém possa refletir “sobre” a tal função e lhe questionar o sentido. Esse triste caráter do conhecimento-informação reduzido foi prenunciado pelo sociólogo francês Henri Lefebvre já nos anos 50, quando ele, em sua “Crítica da Vida Cotidiana”, descrevia a era da informação que chegava: “Ele adquire um ‘conhecimento’. Mas em que consiste ele, exatamente? Não é nem o conhecimento (Kenntnis) real ou aquele adquirido por processos de reflexão (Erkenntnis), nem é um poder sobre as coisas observadas, nem, por último, a participação real nos acontecimentos. É uma nova forma do observar: um olhar social sobre o retrato das coisas, mas reduzido à perda dos sentidos, à manutenção de uma falsa consciência e à aquisição de um pseudoconhecimento sem nenhuma participação própria...”.
O “sentido da vida” Em outras palavras, a questão do sentido e da finalidade dos próprios atos de cada um se torna quase impossível. Se os indivíduos se tornam idênticos a suas funções condicionadas, eles deixam de estar em condições de questionar a si mesmos ou ao ambiente que os cerca. Estar “informado” significa então estar totalmente “em forma”, formado pelos imperativos de sistemas de sinais técnicos, sociais e econômicos; para funcionar, portanto, como a porta de comunicação de um circuito complexo. E mais nada. A geração jovem da chamada sociedade do conhecimento é talvez a primeira a perder a questão pueril quanto ao “sentido da vida”. Para isso não haveria espaço suficiente no display. Os “informados” desde pequenos não compreendem mais nem sequer o significado da palavra “crítica”. Eles identificam esse conceito com o erro crítico, indicação de um problema sério, a ser prontamente eliminado na execução de um programa.
Nessas condições, o conhecimento reflexivo intelectual é tido como infrutítero, como uma espécie de bobagem filosófica da qual não precisamos mais. Seja como for, tem-se que lidar com isso de maneira pragmática. O primeiro e único mandamento do conhecimento reduzi- do diz: ele deve ser imediatamente aplicável no sistema de sinais dominante. O que está em questão é o “marketing da informação” sobre “mercados da informação”. O conhecimento intelectual tem de ser encolhido para a condição de “informações”. O que por exemplo será no futuro um “historiador” já é mostrado hoje pelo historiador Sven Tode, de Hamburgo, com seu doutorado.
Sob o título “History Marketing”, ele escreve, sob encomenda, a biografia de empresas a comemorar aniversários de fundação; ajuda-as também cuidando de seus arquivos. Seu grande sucesso: para uma empresa norte-americana que se achava envolvida numa disputa pela patente de um encaixe tipo baioneta para mangueiras de bombeiro, Tode pôde desenterrar documentos arquivados que proporcionaram a quem encomendou os seus serviços uma economia de US$ 7 milhões. Cada vez mais desempregados, individuos submetidos a uma dieta financeira de fome e portadores achincalhados de um socialmente desvalorizado conhecimento de reflexão se esforçam em transformar seu pensamento, reduzindo-o aos conteúdos triviais de conhecimentos funcionais e reconhecimentos de sinais, para permanecer compatíveis com o suposto progresso e vendáveis. O que se produz daí é uma espécie de "filosofia do banco de automóvel inteligente”. Na verdade, é triste que homens instruidos no pensamento conceitual se deixem degradar à condição de palhaços decadentes da era da informação. A sociedade do conhecimento está extremamente desprovida de espirituosidade, e por isso até mesmo nas ciências do espírito o espírito vai sendo expulso. O que resta é uma consciência infantilizada que brinca com sucata desconexa de conhecimento e informação.
De todo modo, o conhecimento degradado em “informação” não se revelou economicamente estimulante na medida em que se havia esperado. A New Economy da sociedade do conhecimento entrou em colapso tão rápido quanto foi proclamada. Isso também tem sua razão; pois o conhecimento, seja lá na forma que for, diferentemente de bens materiais ou serviços prestados, não é reproduzível em “trabalho” e, portanto, em criação de valor, como objeto econômico. Uma vez posto no mundo, ele pode ser reproduzido sem custo, na quantia que se deseje. Em seu debate com o economista alemão Friedrich List, em 1845, Karl Marx já escrevia: “As coisas mais úteis, como o conhecimento, não têm valor de troca”. Isso vale também para o atualmente reduzido conhecimento- informação, cuja utilidade pode ser posta em dúvida.
Assim a escassa reflexão intelectual vinga-se dos profetas da alegada nova sociedade do conhecimento. A montanha de dados cresce, o real conhecimento diminui. Quanto mais informações, mais equivocados os prognósticos. Uma consciência sem história, voltada para a atemporalidade da “inteligência artificial”, tem de perder qualquer orientação. A sociedade do conhecimento, que não conhece nada de si mesma, não tem mais nada a produzir senão sua própria ruína. Sua notória fraqueza de memória é ao mesmo tempo seu único consolo.
 
 
* Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemao, autor de "Os Últimos Combates" (ed. Vozes) e "O Colapso da Modernização" (ed. Paz e Terra).