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domingo, 13 de janeiro de 2013

Qual é a vocação do Brasil?

Roberto da Matta


A pergunta é importante e faz parte de nosso momento. Antigamente, ela não existia. Tínhamos todos a certeza plena de que éramos “subdesenvolvidos”, com direito a um hino e tudo. Tempos depois, a questão crítica era saber qual o rumo do Brasil – e, sabendo que ele ia para o abismo, evitar o mau passo. Em seguida, nos anos mais pesados da hiperinflação e da esperança de que havia mesmo uma fórmula capaz de resolver todos os problemas sociais do mundo e do país, perguntou-se muito se o Brasil daria certo. Alguns falavam que o país havia “perdido o trem da história”. Imagine o leitor: a dona História, personificada num elegante trem de alta velocidade, esperando numa plataforma um Brasil que, indolente e sem agenda, chegava atrasado.
Um cruzamento doentio de três raças tristes: o português atrasado, cúpido e subserviente aos ingleses e, ademais, já misturado pela ocupação árabe de 500 anos; o índio primitivo, infantil e indigente; e o negro melancólico e ignorante, cujo destino era ser escravo. Tal mistura explicaria essa preguiça. No século XIX, quando os subsociólogos europeus e americanos afirmam que a marca da Civilização (com “C” maiúsculo) eram a pureza étnica (ou “racial”, como se dizia), a homogeneidade dos costumes, a integridade linguística e a posse de um território indiscutível, tínhamos todas as unidades, menos a racial. Nosso maior problema não era como os europeus e os americanos nos viam – pobres morenos, mulatos ou negros vivendo num clima desgraçadamente tropical –, mas como nós mesmos aceitávamos esses diagnósticos e repetíamos o mantra de um país sem futuro e, por isso mesmo, dotado apenas de futuro.
No afã de copiarmos o fundamentalismo ideológico europeu e americano, criamos uma teoria da miscigenação e do branqueamento que contrariava frontalmente as teorias do racismo clássico. O racismo que justificava as segregações, inspirado no livro A diversidade moral e intelectual das raças, escrito em 1856 pelo francês Conde de Gobineau, dizia que a diversidade humana era uma questão de “raça”. Elas seriam responsáveis por estágios de desenvolvimento econômico, social e tecnológico. Uma redução natural, o conceito de “raça” explicava não apenas a multiplicidade humana, mas também hierarquizava essa pluralidade. A “raça branca” estava no topo, e as outras – a “amarela” e a “negra” (estou usando os termos de Gobineau) eram inferiores, vocacionadas para ser civilizadas e catequizadas. Enquanto as raças se mantivessem puras, tudo correria bem. O problema era o cruzamento ou o encontro físico ou íntimo das raças.
A abertura para o outro e para os motivos do outro, um estilo de educação sentimental, é a marca brasileira
É óbvio que, por trás dessas arrogantes teorizações, estava a condenação da intimidade, da atração, do amor e do relacionamento – que engendrava como castigo os mulatos, que seriam estéreis, ou os mestiços, que combinariam, como ocorreu no mundo inteiro, mas sobretudo em países como o Brasil, traços de várias sociedades, línguas, músicas, comidas, vestimentas e sistemas de crenças. A mistura que produziria seres ou grupos inferiores e doentios era o ponto focal das teorias europeias e americanas. Tanto que Gobineau, cônsul da França na corte de Pedro II, afirmava que, em 200 anos, o Brasil pereceria porque – como observa Thomas Skidmore em seu livro Preto no branco – “a mistura apagaria as melhores qualidades do branco, do negro e do índio, deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física e mental”. Tanto para ele quanto para o zoólogo Louis Agassiz, de Harvard, que também visitou o Brasil, a miscigenação levaria a um beco sem saída e a um não futuro.
Quando se começou a estudar o Brasil não como raça, mas como um grupo dotado de costumes, hábitos e valores – isso que os antropólogos chamam de cultura –, começamos a sair do inexorável para entrar no terreno do possível. E o território do possível é o solo da liberdade e das escolhas, da política e da responsabilidade.
Quando saímos das garras dessa falsa ciência chamada “eugenia” (a palavra significa bem-nascido) – que, na Europa, produziu o nazifascismo e o Holocausto e, nos Estados Unidos dos livres e iguais, inventou o segregacionismo e o comitê de atividades antiamericanas –, entramos no mundo das possibilidades. E o que se começou a perceber a partir, entre outros, do Gilberto Freyre de Casa grande & senzala, de 1933, foi que evitar a mistura era equivalente a evadir-se do contato e do encontro humano complexo, contraditório, antagônico, mas igualmente solidário e visceral entre pessoas, comidas, músicas e moralidade, usando como instrumento o próprio corpo.
Pensemos no colonizador clássico. Pensemos nos ingleses na Índia. Ali, a proibição da mistura – como ocorreu com John Smith e Pocahontas na América – impede de olhar o par relacionado, mas, ao mesmo tempo, tão diferenciado. No Brasil, ao contrário, tem sido a mestiçagem, com seu cinismo positivo e ceticismo exemplar, um instrumento de salvação do país e, sobretudo, de seus pobres. A mestiçagem tem sido não apenas um foco inimaginável de poder; ela é, principalmente, uma máquina de juntar opostos, de obrigar a pensar no outro e no subordinado. Tem sido um instrumento de criar beleza e harmonia.
Chamo a atenção para o inesperado do mundo. O Brasil entrou no século XX como um país mestiço e condenado a ser fraco e atrasado, a menos que virasse branco. Hoje, neste século XXI estruturado em cima de paradoxos e dúvidas, nosso mulatismo cultural nos abre ao outro, aos relacionamentos e a um estilo nacional de ser que provoca sorrisos em toda parte. A abertura para o outro e para os motivos do outro como um estilo de educação sentimental é a marca brasileira. Vemos melhor do que o resto do mundo que vivemos com os outros e não contra eles. Mulatizamos o individualismo, tornando-o personalista. Um individualismo que se curva diante das relações, dos parentes e dos amigos. Isso tem produzido problemas na esfera política e administrativa, sem dúvida. Mas pode ser contrabalançado pela força de novos hibridismos institucionais e pela visão da totalidade nacional em suas carências. Não dá mais para, com os amigos e partidários, furtar o dinheiro de todos.
Os racistas não previam aquilo que já estamos fartos de saber. Não há pureza no mundo. Todos precisamos uns dos outros. Não há nada como combinar temperos e músicas. Nossa vocação (e desafio) é mostrar ao mundo que é possível viver ligando fronteiras, construindo pontes e ultrapassando fundamentalismos e preconceitos. O mundo não é somente impuro. Ele é mestiço, misturado e confuso.
 
Roberto da Matta - Antropólogo e autor de vários livros
 
 
 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Retrospectiva Ciso 2012


Posse da Diretoria do Centro Acadêmico de Ciências Sociais - CASIS-UNEB

 
 
A Diretoria do Centro Acadêmico de Ciências Sociais - CASIS-UNEB, tomou posse ontem(08/01) pela manhã, no Auditório Jurandyr Ferreira, na UNEB. Contamos com a presença de colegas de outros cursos, dos representantes do DA de Pedagogia e de Psicologia, da Diretora do Departamento de Educação Profª Drª Carla Liane, a coordenadora do nosso curso Profª. Drª Regina Vieira, além de vários professores a exemplo da Profª de Sociologia Dra. Patrícia Lessa, Profª. Dra. Ana Paula,  o antropólogo Prof. Dr. Valdélio Silva  que representou outros docentes na mesa.


  
 
Foi um evento marcante onde apresentamos um filme sobre a Retrospectica do primeiro ano do nosso curso, como também pelo discurso do Coordenador do CASIS-UNEB: "Estamos compartilhando um momento histórico e significativo, um novo capítulo na história da UNEB e aqui nesse Departamento de Educação, depois de muitas lutas, algumas polêmicas, enfim, conseguimos realizar esse projeto que teve a participação de todos os colegas e assim, fundamos o primeiro Centro Acadêmico de Ciências Sociais. A  cada dia me apaixono pelas Ciências Sociais... ao chegar aqui, pensei em fazer algo grandiosos pela coletividade e vi dentro dessa universidade a possibilidade de fortalecer o movimento estudantil com meus colegas e os de outros curso. Como primeiro Coordenador Geral do CASIS-UNEB, juntamente com a Diretoria, me comprometo a lutar pelos direitos dos estudantes de Ciências Sociais, participando das lutas em benefício do movimento estudantil."
 
  

 
1ª DIRETORIA DO CENTRO ACADÊMICO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CASIS  — UNEB

 

Coordenador: Bruno Mattos

Vice-Coordenadora: Sidneia Miranda

Secretária:  Maria de Fátima F. Barreto

2ª Secretária: Daniela Rosa Ribeiro

Tesoureiro: Paulo Francisco de Souza

2º Tesoureiro: Pedro Henrique S. Machado

Secretaria de Mobilização e Articulação do Movimento Estudantil: Patrício Freitas

Suplente: Luan de Jesus Oliveira

Secretaria de Cultura, Eventos e Formação: Vagner dos Santos Encarnação

Suplente: Rosangela Santos Athayde

Secretaria de Comunicação:  Darlaine  Bomfim das Mercês

Suplente: Ana Terra dos Santos Araújo

Secretaria de Políticas de Gênero: Pedro Paulo Fonseca dos Santos

Suplente: Mariana Araújo Neves

Secretaria de Políticas Raciais: Ticiana Dórea Ribeiro dos Santos

Suplente: Cleber Pereira do Espirito Santo 

Secretaria  de Arte e Esportes: Amanda de Freitas Alves

Suplente: Janaine Pires Costa


Finalmente estamos de férias!





 
 
 
 
 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Os sentidos da sujeira, artigo de Peter Burke

A antropóloga Mary Douglas, morta em maio, investigou como a higiene pode estar ligada a medos e inseguranças individuais


Peter Burke, historiador inglês, é autor de "O Que É História Cultural?" (Ed. Zahar). Tradução de Clara Allain. Artigo publicado no caderno “Mais!” da “Folha de SP”:

A sujeira, tal como a conhecemos, é essencialmente desordem. A sujeira absoluta não existe: ela está nos olhos de quem a vê."

Assim Mary Douglas, falecida em 16 de maio, começou seu livro "Pureza e Perigo" (1966), que a tornou célebre.

Mary Douglas (1921-2007) foi antropóloga inglesa, aluna de Edward Evans-Pritchard, o mais importante antropólogo britânico de meados do século 20.

Como Evans-Pritchard, Douglas era católica num país protestante (estudou no colégio de freiras Sacred Heart) – um pano de fundo que talvez ajude a explicar o que a levou a interessar-se pela antropologia.

Ela fez seu trabalho de campo na África, no então Congo Belga, entre os leles, que na época eram um povo que vivia da caça e do cultivo de milho.

Retornando ao Reino Unido, publicou uma etnografia dos leles que lhe valeu uma boa reputação entre seus colegas e um cargo docente na University College, em Londres.

Então, de repente, quando estava na casa dos 40 anos, tornou-se famosa nacional e internacionalmente (especialmente nos EUA, onde mais tarde iria viver por algum tempo).

Por quê? Mary foi uma das primeiras antropólogas a compreender que as técnicas que aprendera para estudar o "outro" – para pesquisar "povos primitivos", como ainda diziam os antropólogos nos anos 1960 – poderiam ser empregadas com bons resultados no estudo de sua própria sociedade.

Ela foi uma das criadoras do que se poderia chamar de "a antropologia do nós", aquilo que Pierre Bourdieu mais tarde descreveria como "antropologia reflexiva" (em 1966, Bourdieu retornara à França havia pouco, vindo da Argélia, e seu grande estudo sobre a França, "La Distinction" [A Distinção], não seria publicado até 1979).

A grande idéia de Mary Douglas foi a de que os conceitos de poluição e de tabu, tão freqüentemente empregados para analisar o "pensamento primitivo" ou "a mente selvagem", eram igualmente relevantes para a compreensão do cotidiano dos ocidentais, como os ingleses.

Na Inglaterra, assim como na África, as crenças e as ações relacionadas à pureza e à impureza não são apenas questões de higiene. A higiene e a limpeza são um ritual que ajuda a criar ordem na vida das pessoas.

"Quando refletimos honestamente sobre nossas escovações e faxinas", escreveu a antropóloga -que era também dona-de-casa inglesa-, "percebemos que não estamos principalmente procurando evitar doenças".

"Estamos separando, demarcando fronteiras, fazendo afirmações visíveis sobre o lar que pretendemos criar a partir da casa material."

Ameaça

Inversamente, aquilo que não se enquadra no sistema de classificação e, logo, ordenação do mundo de uma cultura específica -ou aquilo que está no limite ou na margem desse sistema- é comumente visto como sendo ameaçador e, portanto, como impuro, sujo.

Por que, por exemplo, os judeus e muçulmanos evitam comer carne de porco?

Porque tanto judeus quanto árabes eram povos pastoris, que se alimentavam de seu gado, e os porcos não se enquadravam nos critérios que definiam o gado (eles tinham cascos fendidos, como os bovinos, mas, à diferença destes, não ruminavam).

De maneira semelhante, alguns grupos humanos enxergam outros como marginais, perigosos e sujos.

Assim os mendigos são vistos como sujos por pessoas que têm dinheiro, e o mesmo acontece com as prostitutas por parte das mulheres respeitáveis, com a classe trabalhadora por parte da classe média, com os judeus por parte de cristãos ou muçulmanos, e assim por diante.

Logo, não é por acaso que os brasileiros se refiram aos criminosos como sendo marginais.

Numa era em que a "limpeza étnica" virou um slogan comum, este último ponto pode parecer evidente, mas na Inglaterra, em 1966 (pelo que me recordo), era algo surpreendente e até mesmo, para alguns leitores, chocante.

De minha parte, devo confessar que – embora tenha lido "Pureza e Perigo" nos anos 1960 e achado suas idéias extremamente interessantes – foi apenas quando primeiro visitei o Brasil, na década de 1980, me casei com uma brasileira e fui incorporado a uma família brasileira que me dei conta de quão diferentes podem ser as idéias e premissas cotidianas sobre limpeza em culturas distintas e de que os brasileiros acreditam que os ingleses não tomam banhos suficientes (os ingleses pensam o mesmo acerca dos franceses).

Em 1966, Mary Douglas ainda tinha mais de 40 anos de vida pela frente. Ela recebeu muitos convites para fazer palestras, dentro e fora do mundo acadêmico, e publicou livros sobre uma série de temas – "Símbolos Naturais" (1970), ampliando suas idéias sobre o simbolismo do corpo, para além da sujeira e da limpeza; "O Mundo dos Bens" (1978), que dizia respeito ao que chamou de "a antropologia do consumo"; um estudo intitulado "Risco e Cultura" (1980) e uma antropologia das instituições, desde famílias até grandes empresas, intitulado "Como as Instituições Pensam" (1986; no Brasil, pela Edusp).

Esses livros, juntamente com seus ensaios mais curtos sobre temas que variam de piadas até a memória, são repletos de idéias originais, que, em muitos casos, desafiam as premissas convencionais.

Por exemplo, damos como certo que o pensamento é algo feito por indivíduos, mas Mary Douglas argumentou que, em certo sentido, as coletividades ou instituições têm pensamentos próprios.

Sistemas de informação

Estamos habituados, também, à idéia de que os bens materiais podem ser vistos ou "lidos" como símbolos do status de quem os possui. Douglas, por outro lado, criticava essa leitura, que via como sendo simplista.

Ela concordou que os bens podem ser vistos como um "sistema de informação", mas argumentou que os objetos que um indivíduo específico possui e exibe não dizem respeito apenas a status mas também, como já sugerira o romancista Henry James, à personalidade, aos interesses e aos gostos de quem os possui.

Embora suas realizações não possam ser reduzidas a um único livro e muito menos ainda a uma idéia, o nome de Mary Douglas permanece ligado com firmeza a sua sugestão de que aquilo que enxergamos como sujo depende de nossa cultura e revela muito sobre nossos temores conscientes e inconscientes.

Da próxima vez em que nos flagrarmos descrevendo um objeto, um lugar ou uma pessoa como sujos, poderíamos nos fazer a pergunta proposta por ela: "Do que eu tenho medo?".

Para compreender a era da globalização na qual vivemos, na qual o mundo está sendo reordenado mais rapidamente do que a maioria de nós consegue aceitar, precisamos todos da inspiração da abordagem antropológica de Mary Douglas, de sua visão das margens e de seu dom de enxergar outras culturas de dentro para fora e sua própria cultura de fora para dentro.
(Folha de SP, Mais!, 5/8)



Disponível em: Jornal da Ciência - SBPC - http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=49321


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Feliz Ano Novo: um minuto que revela o tempo de Cronos


A mudança entre o minuto que antecede um novo ano é um momento de grande magia. Os corações vacilam entre o velho e o novo e nesse caso, o velho é o ano que passa se arrastando no seu último minuto, no movimento lento do deus Cronos (o Senhor do Tempo), no se aspecto de ancião, que nessa passagem entrega o seu bastão sagrado para o seu jovem substituto.


O Velho Senhor do Tempo, agora precisa partir e isso me faz lembrar uma passagem do livro de James Frazer “O Ramo de Ouro” , no qual conta a lenda do sacerdote-rei, que guardava o bosque da deusa Diana em Nemi e tinha que arrancar um ramo da árvore sagrada e matar seu predecessor. Essa era uma tradição que seguia uma profecia de que o velho rei morria para que o jovem rei pudesse viver para assumir seu posto.


Essa profecia parece se cumprir em cada dia 31 de dezembro de cada ano, exatamente zero hora e cinquenta e nove minutos e essa morte simboliza o desapegar-se do nosso “reinado” como guardiões do tempo que rege cada ano que termina, para permitir que as novas energias dos novos começos e recomeços, passem pela roda do tempo e lentamente a cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia, cada semana e cada mês, cumpra seu destino fechando e abrindo o ciclo da vida.


Esperança! Essa é a palavra da sorte de todo começo de ano. Todos ou pelo menos quase todos os mortais desse “planeta Brasil”, vestem-se de branco, como se desejasse uma espécie de purificação pelos excessos cometidos no ano que passou e se dirigem como se fossem guiados instintivamente para o mar. É lá que suas energias se renovam, onde são feitos seus pedidos e onde acreditam que apenas tocando os pés ou as mãos na água, magicamente estão de volta ao colo da grande mãe Yemanjá e pedem silenciosamente proteção para seus filhos, mesmo os filhos adotivos. E essa mãe generosa responde tocando com sua saia de babados formados pelas ondas, em todos aqueles que se colocam à beira da praia.


Saúde! É a segunda força dessa magia de sorte. A explosão de fogos que rasgam o céu formam pequenas estrelas de todas as cores, como gotas de luz que purificam a todos, que encantados pedem como se fosse a um deus Pai, para que com seus raios abençoe seus filhos bêbados de cerveja, vinho e champanhe, que em suas preces apenas balbuciam: Feliz Ano Novo! A resposta dos seus pedidos vem através do deus Dionísio(deus do vinho e do prazer), que inicia oficialmente o novo ano com seu ritual de alegrias embaladas pela embriaguez.


É interessante observar e perceber que quanto mais nos entregamos ao ritual dionisíaco, mais ficamos livres do que não é mais necessário em nós, quanto mais nos conectamos com o novo senhor do tempo, mais nos permitimos ser conduzidos delicadamente pelos seus caminhos e portais. Quanto mais nos fechamos em nós mesmos, mais difícil será para abrir as fechaduras dos portais do tempo, que se fecharão impedindo a nossa passagem. É a ferrugem do nosso coração que faz fechar todos os caminhos e a única saída é azeitar nossas fechaduras, é colocar o amor em tudo que fazemos e essa não é uma tarefa fácil, para os que estão fechados em si mesmos.


A chave e a fechadura do tempo se completam e se encaixam perfeitamente e disso depende a forma como seguramos a chave para que ela destranque todas as fechaduras. O tempo vai passando e não espera e tampouco, volta um segundo sequer para esperar a nossa vontade de seguir e cada vez que emperramos nossa vida, mais tempo perdemos para que se cumpram os nossos objetivos, deflagrados pela esperança.


Dinheiro é a terceira palavra da sorte. A esperança que move a multidão indo em direção ao mar, me faz lembrar a corrida das tartarugas marinhas recém-nascidas para chegarem até a água. É uma corrida pela sobrevivência da espécie e aquelas que não conseguem, fatalmente, estão condenadas à morte, seja pelos predadores ou pela falta de resistência física. É assim também com os humanos essa corrida simboliza a realização do desejo de viver em liberdade e para a maioria, a felicidade está relacionada com liberdade ou independência financeira e na sociedade capitalista essa é uma corrida desigual, pois as oportunidades são diferentes para conseguir chegar ao final dessa corrida como vitoriosos.


Entretanto, essa corrida só faz sentido na companhia de outros humanos, pois, a construção da sobrevivência implica viver em bandos, em grupos, em tribos ou em comunidades urbanas ou rurais que se espalham pelo mundo com todas as suas diversidades. Contudo, viver com outros significa aprender sobre a tolerância para superar as diferenças e essas naturalmente geram conflitos que são partes inseparáveis das relações humanas e isso ocorre no território demarcado da sociedade que acolhe e exclui ou no território limitado da família que apesar de excluir também acolhe pelos laços de sangue que ligam as pessoas desse grupo na sua maioria.


Portanto, conseguir transpor os portais de cada ano, significa aprender a aceitar viver e conviver com as diferenças, pois elas só fazem sentido se aprendemos que a nossa evolução só acontece nessa escola da vida, que nos mostra que estamos vivos e viver representa vivenciar a passagem de cada portal do tempo de Cronos, que demarca a nossa existência em cada dia 31 de dezembro de cada ano, exatamente a zero hora e cinquenta e nove minutos e quem sabe, é dessa forma que vivemos a nossa eternidade como seres humanos em cada Ano Novo.


Por Fátima Barreto – 1/1/2013