A mudança entre o minuto que antecede um novo ano é
um momento de grande magia. Os corações vacilam entre o velho e o novo e nesse
caso, o velho é o ano que passa se arrastando no seu último minuto, no movimento
lento do deus Cronos (o Senhor do Tempo), no se aspecto de ancião, que nessa
passagem entrega o seu bastão sagrado para o seu jovem substituto.
O Velho Senhor do Tempo, agora precisa partir e
isso me faz lembrar uma passagem do livro de James Frazer “O Ramo de Ouro” , no qual conta a lenda do
sacerdote-rei, que guardava o bosque da deusa Diana em Nemi e tinha que arrancar
um ramo da árvore sagrada e matar seu
predecessor. Essa era uma tradição que seguia uma profecia de que o velho rei
morria para que o jovem rei pudesse viver para assumir seu posto.
Essa profecia parece se cumprir em cada dia 31 de
dezembro de cada ano, exatamente zero
hora e cinquenta e nove minutos e essa morte simboliza o desapegar-se do nosso
“reinado” como guardiões do tempo que rege cada ano que termina, para permitir
que as novas energias dos novos começos e recomeços, passem pela roda do tempo e
lentamente a cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia, cada semana e cada
mês, cumpra seu destino fechando e
abrindo o ciclo da vida.
Esperança! Essa é a palavra da sorte de todo começo
de ano. Todos ou pelo menos quase todos os mortais desse “planeta Brasil”,
vestem-se de branco, como se desejasse uma espécie de purificação pelos excessos
cometidos no ano que passou e se dirigem como se fossem guiados instintivamente
para o mar. É lá que suas energias se renovam, onde são feitos seus pedidos e
onde acreditam que apenas tocando os pés ou as mãos na água, magicamente estão
de volta ao colo da grande mãe Yemanjá e pedem silenciosamente proteção para
seus filhos, mesmo os filhos adotivos. E essa mãe generosa responde tocando com
sua saia de babados formados pelas ondas, em todos aqueles que se colocam à beira da
praia.
Saúde! É a segunda força dessa magia de sorte. A
explosão de fogos que rasgam o céu formam pequenas estrelas de todas as cores,
como gotas de luz que purificam a todos, que encantados pedem como se fosse a um
deus Pai, para que com seus raios abençoe seus filhos bêbados de cerveja, vinho
e champanhe, que em suas preces apenas balbuciam: Feliz Ano Novo! A resposta dos
seus pedidos vem através do deus Dionísio(deus do vinho e do prazer), que inicia
oficialmente o novo ano com seu
ritual de alegrias embaladas pela
embriaguez.
É interessante observar e perceber que quanto mais
nos entregamos ao ritual dionisíaco, mais ficamos livres do que não é mais
necessário em nós, quanto mais nos conectamos com o novo senhor do tempo, mais
nos permitimos ser conduzidos delicadamente pelos seus caminhos e portais.
Quanto mais nos fechamos em nós mesmos, mais difícil será para abrir as
fechaduras dos portais do tempo, que se fecharão impedindo a nossa passagem. É a
ferrugem do nosso coração que faz fechar todos os caminhos e a única saída é
azeitar nossas fechaduras, é colocar o amor em tudo que fazemos e essa não é uma
tarefa fácil, para os que estão fechados em si mesmos.
A chave e a fechadura do tempo se completam e se
encaixam perfeitamente e disso depende a forma como seguramos a chave para que
ela destranque todas as fechaduras. O tempo vai passando e não espera e
tampouco, volta um segundo sequer para esperar a nossa vontade de seguir e cada
vez que emperramos nossa vida, mais tempo perdemos para que se cumpram os nossos
objetivos, deflagrados pela esperança.
Dinheiro é a terceira palavra da sorte. A esperança
que move a multidão indo em direção ao mar, me faz lembrar a corrida das
tartarugas marinhas recém-nascidas para chegarem até a água. É uma corrida pela
sobrevivência da espécie e aquelas que não conseguem, fatalmente, estão
condenadas à morte, seja pelos predadores ou pela falta de resistência física. É
assim também com os humanos essa corrida simboliza a realização do desejo de
viver em liberdade e para a maioria, a felicidade está relacionada com liberdade
ou independência financeira e na sociedade capitalista essa é uma corrida
desigual, pois as oportunidades são diferentes para conseguir chegar ao final dessa corrida como
vitoriosos.
Entretanto,
essa corrida só faz sentido na companhia de outros humanos, pois, a construção
da sobrevivência implica viver em bandos, em grupos, em tribos ou em comunidades
urbanas ou rurais que se espalham pelo mundo com todas as suas diversidades.
Contudo, viver com outros significa aprender sobre a tolerância para superar as
diferenças e essas naturalmente geram conflitos que são partes inseparáveis das
relações humanas e isso ocorre no território demarcado da sociedade que acolhe e
exclui ou no território limitado da família que apesar de excluir também acolhe
pelos laços de sangue que ligam as pessoas desse grupo na sua
maioria.
Portanto, conseguir transpor os portais de cada
ano, significa aprender a aceitar viver e conviver com as diferenças, pois elas
só fazem sentido se aprendemos que a nossa evolução só acontece nessa escola da
vida, que nos mostra que estamos vivos e viver representa vivenciar a passagem
de cada portal do tempo de Cronos, que demarca a nossa existência em cada dia 31 de dezembro de cada ano,
exatamente a zero hora e cinquenta e nove minutos e quem sabe, é dessa forma que
vivemos a nossa eternidade como seres humanos em cada Ano Novo.
Por Fátima Barreto – 1/1/2013
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