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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Feliz Ano Novo: um minuto que revela o tempo de Cronos


A mudança entre o minuto que antecede um novo ano é um momento de grande magia. Os corações vacilam entre o velho e o novo e nesse caso, o velho é o ano que passa se arrastando no seu último minuto, no movimento lento do deus Cronos (o Senhor do Tempo), no se aspecto de ancião, que nessa passagem entrega o seu bastão sagrado para o seu jovem substituto.


O Velho Senhor do Tempo, agora precisa partir e isso me faz lembrar uma passagem do livro de James Frazer “O Ramo de Ouro” , no qual conta a lenda do sacerdote-rei, que guardava o bosque da deusa Diana em Nemi e tinha que arrancar um ramo da árvore sagrada e matar seu predecessor. Essa era uma tradição que seguia uma profecia de que o velho rei morria para que o jovem rei pudesse viver para assumir seu posto.


Essa profecia parece se cumprir em cada dia 31 de dezembro de cada ano, exatamente zero hora e cinquenta e nove minutos e essa morte simboliza o desapegar-se do nosso “reinado” como guardiões do tempo que rege cada ano que termina, para permitir que as novas energias dos novos começos e recomeços, passem pela roda do tempo e lentamente a cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia, cada semana e cada mês, cumpra seu destino fechando e abrindo o ciclo da vida.


Esperança! Essa é a palavra da sorte de todo começo de ano. Todos ou pelo menos quase todos os mortais desse “planeta Brasil”, vestem-se de branco, como se desejasse uma espécie de purificação pelos excessos cometidos no ano que passou e se dirigem como se fossem guiados instintivamente para o mar. É lá que suas energias se renovam, onde são feitos seus pedidos e onde acreditam que apenas tocando os pés ou as mãos na água, magicamente estão de volta ao colo da grande mãe Yemanjá e pedem silenciosamente proteção para seus filhos, mesmo os filhos adotivos. E essa mãe generosa responde tocando com sua saia de babados formados pelas ondas, em todos aqueles que se colocam à beira da praia.


Saúde! É a segunda força dessa magia de sorte. A explosão de fogos que rasgam o céu formam pequenas estrelas de todas as cores, como gotas de luz que purificam a todos, que encantados pedem como se fosse a um deus Pai, para que com seus raios abençoe seus filhos bêbados de cerveja, vinho e champanhe, que em suas preces apenas balbuciam: Feliz Ano Novo! A resposta dos seus pedidos vem através do deus Dionísio(deus do vinho e do prazer), que inicia oficialmente o novo ano com seu ritual de alegrias embaladas pela embriaguez.


É interessante observar e perceber que quanto mais nos entregamos ao ritual dionisíaco, mais ficamos livres do que não é mais necessário em nós, quanto mais nos conectamos com o novo senhor do tempo, mais nos permitimos ser conduzidos delicadamente pelos seus caminhos e portais. Quanto mais nos fechamos em nós mesmos, mais difícil será para abrir as fechaduras dos portais do tempo, que se fecharão impedindo a nossa passagem. É a ferrugem do nosso coração que faz fechar todos os caminhos e a única saída é azeitar nossas fechaduras, é colocar o amor em tudo que fazemos e essa não é uma tarefa fácil, para os que estão fechados em si mesmos.


A chave e a fechadura do tempo se completam e se encaixam perfeitamente e disso depende a forma como seguramos a chave para que ela destranque todas as fechaduras. O tempo vai passando e não espera e tampouco, volta um segundo sequer para esperar a nossa vontade de seguir e cada vez que emperramos nossa vida, mais tempo perdemos para que se cumpram os nossos objetivos, deflagrados pela esperança.


Dinheiro é a terceira palavra da sorte. A esperança que move a multidão indo em direção ao mar, me faz lembrar a corrida das tartarugas marinhas recém-nascidas para chegarem até a água. É uma corrida pela sobrevivência da espécie e aquelas que não conseguem, fatalmente, estão condenadas à morte, seja pelos predadores ou pela falta de resistência física. É assim também com os humanos essa corrida simboliza a realização do desejo de viver em liberdade e para a maioria, a felicidade está relacionada com liberdade ou independência financeira e na sociedade capitalista essa é uma corrida desigual, pois as oportunidades são diferentes para conseguir chegar ao final dessa corrida como vitoriosos.


Entretanto, essa corrida só faz sentido na companhia de outros humanos, pois, a construção da sobrevivência implica viver em bandos, em grupos, em tribos ou em comunidades urbanas ou rurais que se espalham pelo mundo com todas as suas diversidades. Contudo, viver com outros significa aprender sobre a tolerância para superar as diferenças e essas naturalmente geram conflitos que são partes inseparáveis das relações humanas e isso ocorre no território demarcado da sociedade que acolhe e exclui ou no território limitado da família que apesar de excluir também acolhe pelos laços de sangue que ligam as pessoas desse grupo na sua maioria.


Portanto, conseguir transpor os portais de cada ano, significa aprender a aceitar viver e conviver com as diferenças, pois elas só fazem sentido se aprendemos que a nossa evolução só acontece nessa escola da vida, que nos mostra que estamos vivos e viver representa vivenciar a passagem de cada portal do tempo de Cronos, que demarca a nossa existência em cada dia 31 de dezembro de cada ano, exatamente a zero hora e cinquenta e nove minutos e quem sabe, é dessa forma que vivemos a nossa eternidade como seres humanos em cada Ano Novo.


Por Fátima Barreto – 1/1/2013

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