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terça-feira, 9 de outubro de 2012

As redes sociais como elo entre os indivíduos dentro de uma sociedade anômica e individualista.


Paulo Francisco de Souza



O processo de revolução industrial no século XVIII foi sem dúvida, um dos processos mais significativos que a humanidade já viu. Seu conjunto de mudanças gerou um profundo impacto político, econômico e social. Além de um grande processo de reestruturação das relações de trabalho, de poder e também nas relações entre as diferentes nações do mundo. Dentre as mais importantes mudanças, além das já citadas, temos o surgimento da chamada cultura de massa e ainda a substituição da mão de obra artesanal, ou seja, trabalho braçal humano, pelas máquinas. Essa substituição foi responsável por outro processo, o de especialização dos serviços e uma busca cada vez maior por qualificação profissional para atender as novas demandas solicitadas.

Toda essa conjuntura associada ao rápido crescimento do capitalismo, através da conquista e exploração das Américas, impulsionou um novo cenário, e desencadeou um processo que a humanidade já conhecia desde o iluminismo, do renascimento e do surgimento das teorias antropocêntricas, mas que ao mesmo tempo era relativamente novo: o processo de individualismo e afastamento dos indivíduos em relação ao social.

Com a revolução industrial e suas demandas, a sociedade nunca mais seria a mesma, os indivíduos passaram a prezar o individual em detrimento do coletivo, o que era produzido, tinha como objetivo satisfazer na maioria das vezes, as necessidades individuais e não coletivas.

Podemos analisar todo esse processo de afastamento do coletivo sobre diversas óticas, pode ter sido uma estratégia capitalista para estimular o consumo dos produtos que eram produzidos pelas fabricas; pode ter sido uma estratégia capitalista para enfraquecer o corpo coletivo; ou pode ainda ter sido apenas uma ordem natural do processo de especialização gerado pela revolução industrial. Creio que nunca saberemos ao certo o porquê do desencadeamento do processo, porém podemos teorizar sobre seus desdobramento e consequências.

Assim, afim de tentar analisar um dos milhares de desdobramentos e consequências de todo esse processo, remeto-me a Spinoza, filósofo do século XVII, que postula sobre a mente e a natureza humana, sobre Deus, sobre o corpo e sobre a inter-relação entre todos esses elementos. Em uma de suas preposições, Spinoza sugere que: “o corpo humano depende de muitos outros corpos, pelos quais ele é como que continuamente regenerado”. Excluindo todas as outras acepções de “corpo” que são trazidas implicitamente por Spinoza, e assumindo “corpo” apenas enquanto outro individuo, nessa preposição Spinoza deixa bem delimitado a natureza do homem, sendo para ele o homem, um ser que depende constantemente de seus iguais para manter-se. Essa preposição proposta por Spinoza aproxima-se do que Aristóteles já havia dito no século IV antes de Cristo: “o homem é um animal social”. Porem é preciso salvaguardar a inúmeras diferenças de contexto histórico e também entre os dois pensamentos. Quando Aristóteles propõe que o homem é um animal social, o vejo sugerindo uma vida que não pode ser dissociada da política, da justiça e do convívio com outros homens. Já Spinoza quando propõe que o corpo humano depende de muitos outros corpos para ser regenerado, penso que, ele sugere a necessidade do convívio entre os indivíduos como forma de maximizar sua potência de agir, em busca da felicidade suprema1. Entretanto, creio que ambos pensadores concebem o convívio, como uma espécie de processo que cria um elo entre os homens, sem o qual o homem não sobrevive.

Com a revolução industrial e a chamada “modernidade”, esse processo de criação natural do elo é quebrado. Dando lugar a um processo contrario, ou seja, o afastamento e o individualismo, que gera consequentemente uma sociedade anômica. O conceito de anomia é criado por Durkheim, e serve em linhas gerias, para caracterizar uma sociedade onde há uma espécie de “vazio cultural2”, deixando assim os indivíduos que compõe essa sociedade sem uma identidade cultural forte e sem um referencial comum que os una. Ou seja, não há uma ligação entre os indivíduos nem algo que os mantenham naturalmente unidos.

Com todo esse processo, os homens se viram obrigados a pensar outras formas e mecanismos de criar e manter esse elo e essa ligação. Com o passar dos séculos vários mecanismos foram criados, consciente ou inconscientemente, visando esse fim. Dentre eles posso citar as ONGs (organizações não governamentais), as associações diversas (de moradores, de trabalhadores, de estudantes etc.), as entidades religiosas e assim por diante, mas invariavelmente todas essas organizações tinham e tem um mesmo fim: o ajuntamento de indivíduos para a criação de um corpo coletivo que venha, ou não, lutar por certos ideais ou reivindicar seus direitos. Essa ideia de criar um corpo coletivo vai de encontro justamente ao processo de individualização da sociedade, já que a mesma através do processo individualização dos indivíduos busca, ainda que inconscientemente nos enfraquecer.

Trazendo essas duas perspectivas dicotômicas de processo de individualização e tentativa de criação de um elo, para que possa ser gerado um corpo coletivo, tomarei como exemplo um fenômeno da contemporaneidade: as redes sociais. Se fizermos uma analise um pouco mais profunda, as redes sociais nada mais são, que a tentativa de se criar/manter um elo entre indivíduos, sem que se deixe de lado a individualidade, ou seja, sobre o disfarce de nos manter sempre próximos das pessoas queridas, mesmo quando elas estão longe, as redes sociais surgiram como um forte fator de manutenção de uma anomia social e para alem disso recriam e reconfiguram a anomia, fazendo com que os indivíduos se identifiquem na “rede”, conversem, discutam, demonstrem carinho etc. em contrapartida essas mesmas experiências não ocorrem quando os indivíduos se encontram fora da “rede”. Então a grande questão que temos com as redes sociais é: as redes sociais geram ou não um falso sentimento de ligação/elo entre os indivíduos?

Dificilmente responderei essa questão em sua totalidade, e mesmo a tentativa de respondê-la demandaria um estudo mais prático e aprofundado. Porém, ouso teorizar que sim, as redes sociais geram um falso sentimento de ligação entre os indivíduos. Levando em consideração mais uma vez a preposição de Spinoza e considerando ainda o atual contexto da sociedade ocidental, vejo que o homem precisa de outros corpos3 para se regenerar, porém a sociedade capitalista ocidental não permite à criação de um corpo coletivo mais forte e que garanta esse sentimento de unidade, assim as redes sociais fazem o papel de um falso elo entre os indivíduos e perpetuando o processo de anomia social.

Por fim trago um ultimo questionamento: até onde essa anomia social poderá ser mantida pelo falso sentimento de unidade gerado pelas redes sociais? Creio que a resposta a essa questão sereia mais complexa ainda de teorizar, mas talvez em algum momento, a humanidade em toda sua complexidade de relações travadas entre si, consiga compreender e adotar o conceito de liberdade criado por Spinoza...

 

 

1 o conceito de felicidade suprema em Spinoza é bastante complexo, porém pode-se dizer que esse conceito está intimamente ligado ao conceito de homem livre, ou seja, aquele que não está limitado pelas amarras sociais, sem culpa, sem arrependimentos. Apenas liberdade.

2 quando digo vazio cultural, não quero dizer que não há cultura ate porque toda sociedade tem cultura. Apenas sinalizo, para processo de massificação e globalização da cultura, onde deixa de existir o sentimento de pertencimento a determinada cultura.

3 excluo aqui novamente todos as outras acepções implícitas de “corpo” trazidas por Spinoza




Paulo Francisco de Souza - Graduando do Curso de Ciências Sociais da UNEB

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