Paulo Francisco de Souza
O
processo de revolução industrial no século XVIII foi sem dúvida, um dos
processos mais significativos que a humanidade já viu. Seu conjunto de mudanças
gerou um profundo impacto político, econômico e social. Além de um grande
processo de reestruturação das relações de trabalho, de poder e também nas
relações entre as diferentes nações do mundo. Dentre as mais importantes mudanças,
além das já citadas, temos o surgimento da chamada cultura de massa e ainda a
substituição da mão de obra artesanal, ou seja, trabalho braçal humano, pelas máquinas.
Essa substituição foi responsável por outro processo, o de especialização dos
serviços e uma busca cada vez maior por qualificação profissional para atender
as novas demandas solicitadas.
Toda
essa conjuntura associada ao rápido crescimento do capitalismo, através da
conquista e exploração das Américas, impulsionou um novo cenário, e desencadeou
um processo que a humanidade já conhecia desde o iluminismo, do renascimento e do
surgimento das teorias antropocêntricas, mas que ao mesmo tempo era
relativamente novo: o processo de individualismo e afastamento dos indivíduos
em relação ao social.
Com
a revolução industrial e suas demandas, a sociedade nunca mais seria a mesma,
os indivíduos passaram a prezar o individual em detrimento do coletivo, o que
era produzido, tinha como objetivo satisfazer na maioria das vezes, as
necessidades individuais e não coletivas.
Podemos
analisar todo esse processo de afastamento do coletivo sobre diversas óticas, pode
ter sido uma estratégia capitalista para estimular o consumo dos produtos que
eram produzidos pelas fabricas; pode ter sido uma estratégia capitalista para
enfraquecer o corpo coletivo; ou pode ainda ter sido apenas uma ordem natural
do processo de especialização gerado pela revolução industrial. Creio que nunca
saberemos ao certo o porquê do desencadeamento do processo, porém podemos
teorizar sobre seus desdobramento e consequências.
Assim,
afim de tentar analisar um dos milhares de desdobramentos e consequências de
todo esse processo, remeto-me a Spinoza, filósofo do século XVII, que postula
sobre a mente e a natureza humana, sobre Deus, sobre o corpo e sobre a
inter-relação entre todos esses elementos. Em uma de suas preposições, Spinoza
sugere que: “o corpo humano depende de muitos outros corpos, pelos quais ele é
como que continuamente regenerado”. Excluindo todas as outras acepções de
“corpo” que são trazidas implicitamente por Spinoza, e assumindo “corpo” apenas
enquanto outro individuo, nessa preposição Spinoza deixa bem delimitado a
natureza do homem, sendo para ele o homem, um ser que depende constantemente de
seus iguais para manter-se. Essa preposição proposta por Spinoza aproxima-se do
que Aristóteles já havia dito no século IV antes de Cristo: “o homem é um
animal social”. Porem é preciso salvaguardar a inúmeras diferenças de contexto
histórico e também entre os dois pensamentos. Quando Aristóteles propõe que o
homem é um animal social, o vejo sugerindo uma vida que não pode ser dissociada
da política, da justiça e do convívio com outros homens. Já Spinoza quando
propõe que o corpo humano depende de muitos outros corpos para ser regenerado,
penso que, ele sugere a necessidade do convívio entre os indivíduos como forma
de maximizar sua potência de agir, em busca da felicidade suprema1. Entretanto,
creio que ambos pensadores concebem o convívio, como uma espécie de processo
que cria um elo entre os homens, sem o qual o homem não sobrevive.
Com
a revolução industrial e a chamada “modernidade”, esse processo de criação
natural do elo é quebrado. Dando lugar a um processo contrario, ou seja, o
afastamento e o individualismo, que gera consequentemente uma sociedade anômica.
O conceito de anomia é criado por Durkheim, e serve em linhas gerias, para
caracterizar uma sociedade onde há uma espécie de “vazio cultural2”,
deixando assim os indivíduos que compõe essa sociedade sem uma identidade
cultural forte e sem um referencial comum que os una. Ou seja, não há uma
ligação entre os indivíduos nem algo que os mantenham naturalmente unidos.
Com
todo esse processo, os homens se viram obrigados a pensar outras formas e
mecanismos de criar e manter esse elo e essa ligação. Com o passar dos séculos
vários mecanismos foram criados, consciente ou inconscientemente, visando esse
fim. Dentre eles posso citar as ONGs (organizações não governamentais), as
associações diversas (de moradores, de trabalhadores, de estudantes etc.), as
entidades religiosas e assim por diante, mas invariavelmente todas essas organizações
tinham e tem um mesmo fim: o ajuntamento de indivíduos para a criação de um
corpo coletivo que venha, ou não, lutar por certos ideais ou reivindicar seus
direitos. Essa ideia de criar um corpo coletivo vai de encontro justamente ao
processo de individualização da sociedade, já que a mesma através do processo
individualização dos indivíduos busca, ainda que inconscientemente nos enfraquecer.
Trazendo
essas duas perspectivas dicotômicas de processo de individualização e tentativa
de criação de um elo, para que possa ser gerado um corpo coletivo, tomarei como
exemplo um fenômeno da contemporaneidade: as redes sociais. Se fizermos uma
analise um pouco mais profunda, as redes sociais nada mais são, que a tentativa
de se criar/manter um elo entre indivíduos, sem que se deixe de lado a individualidade,
ou seja, sobre o disfarce de nos manter sempre próximos das pessoas queridas,
mesmo quando elas estão longe, as redes sociais surgiram como um forte fator de
manutenção de uma anomia social e para alem disso recriam e reconfiguram a
anomia, fazendo com que os indivíduos se identifiquem na “rede”, conversem,
discutam, demonstrem carinho etc. em contrapartida essas mesmas experiências
não ocorrem quando os indivíduos se encontram fora da “rede”. Então a grande
questão que temos com as redes sociais é: as redes sociais geram ou não um
falso sentimento de ligação/elo entre os indivíduos?
Dificilmente
responderei essa questão em sua totalidade, e mesmo a tentativa de respondê-la
demandaria um estudo mais prático e aprofundado. Porém, ouso teorizar que sim,
as redes sociais geram um falso sentimento de ligação entre os indivíduos. Levando
em consideração mais uma vez a preposição de Spinoza e considerando ainda o
atual contexto da sociedade ocidental, vejo que o homem precisa de outros corpos3
para se regenerar, porém a sociedade capitalista ocidental não permite à
criação de um corpo coletivo mais forte e que garanta esse sentimento de
unidade, assim as redes sociais fazem o papel de um falso elo entre os
indivíduos e perpetuando o processo de anomia social.
Por
fim trago um ultimo questionamento: até onde essa anomia social poderá ser
mantida pelo falso sentimento de unidade gerado pelas redes sociais? Creio que
a resposta a essa questão sereia mais complexa ainda de teorizar, mas talvez em
algum momento, a humanidade em toda sua complexidade de relações travadas entre
si, consiga compreender e adotar o conceito de liberdade criado por Spinoza...
1 o conceito de
felicidade suprema em Spinoza é bastante complexo, porém pode-se dizer que esse
conceito está intimamente ligado ao conceito de homem livre, ou seja, aquele
que não está limitado pelas amarras sociais, sem culpa, sem arrependimentos.
Apenas liberdade.
2 quando
digo vazio cultural, não quero dizer que não há cultura ate porque toda sociedade
tem cultura. Apenas sinalizo, para processo de massificação e globalização da
cultura, onde deixa de existir o sentimento de pertencimento a determinada
cultura.
3 excluo aqui
novamente todos as outras acepções implícitas de “corpo” trazidas por Spinoza
Paulo Francisco de Souza - Graduando do Curso de Ciências Sociais da UNEB
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