Por Fátima Barreto
Ao me inscrever no vestibular
para “Ciências Sociais”, tinha em mente o desejo de tornar-me uma antropóloga,
ou socióloga, ou talvez uma cientista política. Logo no primeiro semestre fui
gostando mais dos temas relativos à antropologia, talvez por perceber que
tinham uma relação mais próxima com a evolução dos grupos humanos com suas
culturas.
Mas ao final do segundo
semestre pude entender que ser profissional das Ciências Sociais, significa estudar
profundamente as origens, o desenvolvimento, a organização, o funcionamento das
sociedades e culturas humanas. Estuda os fenômenos, as estruturas e as relações
que caracterizam as organizações sociais e culturais.
Então, depois da formação
a sua prática profissional passa pela pesquisa e análise dos movimentos sociais,
dos conflitos populacionais, a construção de identidades, a formação das
opiniões. Pesquisa costumes e hábitos, pesquisa e analisa as relações entre
indivíduos, as famílias, os grupos e as instituições. Desenvolve e utiliza um
conjunto variado de técnicas e métodos de pesquisa para o estudo das
coletividades humanas, interpreta os problemas da sociedade, da política e da
cultura.
Vendo por esse lado, o cientista
social é um profissional de extrema importância na sociedade. Recentemente fiz
uma pesquisa nos bancos de estágios e empregos em alguns jornais e na internet
e fiquei surpresa de ver que nenhuma empresa ou órgão público, tinha na sua
lista de profissões procuradas para contratação do cientista social e nem o estudante de ciências
sociais.
Li um artigo do sociólogo
Simon Schwartzman, apresentado à mesa redonda no XIV Encontro Anual da ANPOCS
em 1990 na cidade de Caxambu no Rio de Janeiro, sobre a “Teoria e Método e as
Ciências Sociais Brasileiras da Atualidade”, publicado em A Redescoberta da Cultura, EDUSP, 1997. Esse artigo chamou a minha
atenção na análise que faz sobre a “A crise recorrente das Ciências Sociais” que
diz o seguinte:
Ninguém está
contente com as ciências sociais. Para uns, elas são muito teóricas, abstratas,
e não contribuem para resolver os problemas do país; para outros, predomina a
pobreza teórica, a falta rigor analítico, a preocupação desordenada com
questões imediatistas. Existem os que se queixam da secura dos conceitos
abstratos, da frieza dos números, buscado resgatar a força da sensibilidade
artística e literária; outros deploram o vale tudo da intuição e dos bons
sentimentos. Há os que criticam o elitismo dos cursos de pós-graduação, suas
teses intermináveis e incompreensíveis; e os que lamentam a massificação dos
cursos de graduação, com a indigência dos currículos e a má qualidade dos
estudantes. Há os que criticam o uso abusivo do inglês, o jargão tecnocrático,
a proliferação das citações; e os que lamentam o provincianismo de uma ciência
social que se isola em uma língua secundária, usa idéias de segunda mão sem
conhecer as fontes e não dialoga com o resto do mundo.
É provável que a insatisfação seja maior hoje do que em outros tempos, e mais intensa no Brasil do que na Europa ou nos Estados Unidos. Mas é óbvio que não se trata de um fenômeno novo, nem exclusivamente nacional. As ciências sociais sempre viveram em um estado mais ou menos permanente de "crise", e discussões intermináveis sobre métodos, abordagens e discursos, combinadas com exegeses igualmente intermináveis sobre fundadores, costumam ser tomadas como indicadores do pouco amadurecimento e consolidação do campo. Talvez não seja possível acrescentar muita coisa a esta história, além de reafirmar nossas preferências em relação a alguns destes dilemas. Pode ser útil, no entanto, olhar com algum detalhe o contexto desta "crise", à luz das contribuições mais recentes da sociologia da ciência.[1]
É provável que a insatisfação seja maior hoje do que em outros tempos, e mais intensa no Brasil do que na Europa ou nos Estados Unidos. Mas é óbvio que não se trata de um fenômeno novo, nem exclusivamente nacional. As ciências sociais sempre viveram em um estado mais ou menos permanente de "crise", e discussões intermináveis sobre métodos, abordagens e discursos, combinadas com exegeses igualmente intermináveis sobre fundadores, costumam ser tomadas como indicadores do pouco amadurecimento e consolidação do campo. Talvez não seja possível acrescentar muita coisa a esta história, além de reafirmar nossas preferências em relação a alguns destes dilemas. Pode ser útil, no entanto, olhar com algum detalhe o contexto desta "crise", à luz das contribuições mais recentes da sociologia da ciência.[1]
Outro
aspecto importante também foi avaliado pelo sociólogo sobre o que é próprio as
ciências sociais no Brasil.
O que talvez mais
distinga as ciências sociais em um contexto como o brasileiro é a exiguidade de
seu campo de atuação, e a debilidade de seus vínculos com o sistema
universitário. As ciências sociais mais tradicionais, a história e a geografia,
se expandiram a partir dos anos 40 para atender ao magistério de nível médio,
dentro de uma tradição francesa que não conseguiu se renovar antes de sucumbir
à deterioração dramática que sofreu o ensino secundário no país. As ciências
sociais em sentido mais estrito se desenvolveram ao redor de pequenos grupos ou
personalidades para as quais o campo educacional e universitário, e a função
educativa, nunca foi o mais importante, ou o mais significativo. Mesmo na
Universidade de São Paulo, a primeira universidade brasileira a implantar as
ciências sociais, os "role models" que mais atraíam os alunos eram os
de Antônio Cândido, intelectual polivalente e avesso aos rótulos
departamentais, e os dos intelectuais politizados e marxistas do famoso
"grupo do Capital". Hoje a maioria dos cientistas sociais brasileiros
mais conhecidos ensinam em universidades, mas preferem desenvolver suas
pesquisas em institutos privados, e dificilmente entram em contato com os
alunos dos cursos de graduação.
O espaço que este grupo restrito de cientistas sociais encontrou foi dado sobretudo pela imprensa diária, pelos partidos políticos mais militantes, e pelas editoras que publicam para o leitor mais intelectualizado. Uma consequência importante desta situação foi a restrição de suas temáticas e formas de trabalhar e escrever. As ciências sociais (como, aliás, a maioria dos campos de conhecimento) não tendem à convergência em um paradigma único, e sim à divergência e diversificação progressivas.
O espaço que este grupo restrito de cientistas sociais encontrou foi dado sobretudo pela imprensa diária, pelos partidos políticos mais militantes, e pelas editoras que publicam para o leitor mais intelectualizado. Uma consequência importante desta situação foi a restrição de suas temáticas e formas de trabalhar e escrever. As ciências sociais (como, aliás, a maioria dos campos de conhecimento) não tendem à convergência em um paradigma único, e sim à divergência e diversificação progressivas.
Finalmente,
apesar de ser preocupante toda essa situação do cientista social principalmente
em nosso país, não há por que desanimar sobre como vamos atuar depois da
formação. A crise existe em todas as profissões, a crise existe na sociedade
capitalista e desigual isso é parte de um sistema que gera exclusões nos mais
diversos níveis sociais e econômicos, que precisa ser revisado e modificado e
isso será possível, a partir de uma educação de qualidade oportunizada para
todos. É dessa forma que os indivíduos aprendem a tomar consciência dos seus
valores. Acredito que cada formação está na qualidade do que se aprende durante
a graduação e a responsabilidade e dedicação com o que escolhemos fazer na vida,
apesar das dificuldades e diversidades.
[1] Schwartzman, Simon - A Redescoberta da Cultura - O Lugar das Ciências Sociais; Trabalho apresentado à mesa redonda sobre "Teoria
e Método e as Ciências Sociais Brasileiras da Atualidade", XIV Encontro
Anual da ANPOCS, Caxambu, outubro de 1990, e no seminário "Cientistas
Sociais Hoje", Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 29 de novembro de
1990. Publicado em A Redescoberta da Cultura, EDUSP, 1997. Disponível em: http://www.schwartzman.org.br/simon/redesc/csociais.htm
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