Como
definir esse sentimento brasileiro que veste a fantasia do verde e amarelo da bandeira
nacional, pinta o rosto, o corpo, grita e chora de emoção ao cantar o hino
nacional brasileiro? Que sentimento é esse que mistura as contradições de cores
e etnias, religião e política, pobreza e riqueza no estádio de futebol ou na
tela da televisão como se os jogadores da seleção fossem semideuses, que trazem
a solução para todos os problemas de um país, pelo simples ato de colocar uma
bola dentro de uma rede, fazendo explodir o grito guardado pelo silêncio da
vida, como se esse momento se transformasse na única razão de sua existência.
O “Dia
dos Namorados” do Brasil esse ano, passou por uma espécie de ritual de contradição
e isso ficou demonstrado pela dicotomia entre os sentimentos, individual e
coletivo que estavam presentes nos corações de alguns brasileiros. Houve muitos
pedidos de namoro e até casamento que foram realizados antes de iniciar o jogo
da seleção, como se a promessa de ficar juntos “na alegria e na tristeza” pudesse
de alguma forma garantir a vitória no jogo coletivo. Parece que as pessoas para
suportar o jogo individual, precisam estar juntas para garantir um testemunho
de sua existência, dos seus sentimentos ou para poder suportar as suas dores e
alegrias nesse mundo carente de relações pessoais de solidariedade e de amor.
DAMATTA
(1982) diz que existimos literalmente em campos de futebol, que nossas áreas são
demarcadas por linhas, onde temos espaços sagrados e profanos, pessoas que nos são
adversas e gente nossa, irmãos que desejam o nosso sucesso e estão conosco porque
vestem nossa mesma camisa e companheiros que jogam contra nós. É evidente que
essa comparação metafórica, condiz com a realidade para entender o que futebol representa
realmente para os brasileiros e as brasileiras.
Particularmente,
não me interesso pelo futebol apesar de perceber como ele afeta diretamente
muitas pessoas. Normalmente quando falta assunto nas conversas, o tema que se
apresenta para romper a barreira do silêncio, é o jogo dos times de futebol e
então logo ouvimos “especialistas” analisar o que cada jogador faz ou deixa de
fazer para que um time sempre esteja ganhando. Aqueles que não são amantes do futebol
sentem-se deslocados, como se falasse outro idioma, como é o meu caso, por não
ter argumentos para essa dialética do futebol.
DAMATA
(1982) explica porque o espectador do jogo no Brasil é chamado de torcedor, ou
seja, alguém que torce. A expressão, derivada do verbo torcer, indica a ideia de
revirar-se, retorcer-se, volver-se sobre si mesmo, como quem estivesse sendo submetido
a um torneio físico ou tortura. Então, chamar os espectadores de um jogo de futebol
de torcedores é algo que só pode ser completamente entendido quando se levam em
conta todas essas importantes conotações sociais do esporte e do futebol no Brasil.
Assim,
é possível compreender como os sentimentos individuais e coletivos se misturam
quando o assunto é futebol, principalmente, quando se trata de uma copa do
mundo realizada no Brasil, num momento em que a política faz o jogo do
oportunismo partidário para ganhar as próximas eleições em outubro. Na política
ou no futebol os resultados são imprevisíveis. Ambas as esferas são domínios
que no Brasil e não se pode prever com segurança qual a melhor opção,
considerando que tanto o futebol quanto a política não tem uma relação direta
entre os meios e os fins para se chegar a um resultado que possa reduzir as desigualdades
sociais, políticas, econômicas e culturais da sociedade brasileira.
Dessa
forma, o futebol no Brasil além de ser um esporte, traz no seu contexto uma complexificação
dos sentimentos individuais e coletivos, misturando-os. Segundo DAMATTA (1982)
também é uma máquina de socialização de pessoas, um sistema altamente complexo de
comunicação de valores essenciais e um domínio onde se têm a garantia da continuidade
e da permanência cultural e ideológica enquanto grupo inclusivo. Pois, se as formas
de governo e a Constituição mudam constantemente, se as universidades, o padrão
monetário e os partidos políticos fazem os brasileiros terem muitas dúvidas sobre
sua sociedade enquanto nação moderna, aspirante a um lugar ao sol dentro de uma
ordem mundial, futebol, carnaval e as relações pessoais dizem que a sociedade
brasileira é grande, criativa e generosa.
Finalmente,
tanto no futebol como na "vida real", os homens e as mulheres estão
relacionados em times e (famílias), e isso vale para o modo de ser da política
brasileira, que em objetivo final, só pretendem vencer e atuam com certo “estilo”
para que isso se concretize. Contudo, não podem controlar as ações da equipe
adversária, nem sua habilidade, ou as coincidências, os erros e os acertos que decorrem
do próprio jogo seja ele num estádio, nas manifestações sociais nas ruas ou no
parlamento. Mesmo quando uma equipe apela para meios “mágicos” de vitória - o que
é muito comum no futebol brasileiro e na política, em todos os escalões, a vitória
pode ser situada no plano do favorável ou da imprevisibilidade, mas nunca da certeza.
E sem dúvida, é essa complexidade que permite tomar o jogo de futebol como uma metáfora
da própria vida.
Fátima
Barreto – Graduanda do curso de Ciências Sociais da UNEB – 13/06/2014

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