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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Futebol como uma metáfora da paixão brasileira?



Como definir esse sentimento brasileiro que veste a fantasia do verde e amarelo da bandeira nacional, pinta o rosto, o corpo, grita e chora de emoção ao cantar o hino nacional brasileiro? Que sentimento é esse que mistura as contradições de cores e etnias, religião e política, pobreza e riqueza no estádio de futebol ou na tela da televisão como se os jogadores da seleção fossem semideuses, que trazem a solução para todos os problemas de um país, pelo simples ato de colocar uma bola dentro de uma rede, fazendo explodir o grito guardado pelo silêncio da vida, como se esse momento se transformasse na única razão de sua existência.

O “Dia dos Namorados” do Brasil esse ano, passou por uma espécie de ritual de contradição e isso ficou demonstrado pela dicotomia entre os sentimentos, individual e coletivo que estavam presentes nos corações de alguns brasileiros. Houve muitos pedidos de namoro e até casamento que foram realizados antes de iniciar o jogo da seleção, como se a promessa de ficar juntos “na alegria e na tristeza” pudesse de alguma forma garantir a vitória no jogo coletivo. Parece que as pessoas para suportar o jogo individual, precisam estar juntas para garantir um testemunho de sua existência, dos seus sentimentos ou para poder suportar as suas dores e alegrias nesse mundo carente de relações pessoais de solidariedade e de amor.

DAMATTA (1982) diz que existimos literalmente em campos de futebol, que nossas áreas são demarcadas por linhas, onde temos espaços sagrados e profanos, pessoas que nos são adversas e gente nossa, irmãos que desejam o nosso sucesso e estão conosco porque vestem nossa mesma camisa e companheiros que jogam contra nós. É evidente que essa comparação metafórica, condiz com a realidade para entender o que futebol representa realmente para os brasileiros e as brasileiras.

 

Particularmente, não me interesso pelo futebol apesar de perceber como ele afeta diretamente muitas pessoas. Normalmente quando falta assunto nas conversas, o tema que se apresenta para romper a barreira do silêncio, é o jogo dos times de futebol e então logo ouvimos “especialistas”  analisar o que cada jogador faz ou deixa de fazer para que um time sempre esteja ganhando. Aqueles que não são amantes do futebol sentem-se deslocados, como se falasse outro idioma, como é o meu caso, por não ter argumentos para essa dialética do futebol.

DAMATA (1982) explica porque o espectador do jogo no Brasil é chamado de torcedor, ou seja, alguém que torce. A expressão, derivada do verbo torcer, indica a ideia de revirar-se, retorcer-se, volver-se sobre si mesmo, como quem estivesse sendo submetido a um torneio físico ou tortura. Então, chamar os espectadores de um jogo de futebol de torcedores é algo que só pode ser completamente entendido quando se levam em conta todas essas importantes conotações sociais do esporte e do futebol no Brasil.

 

Assim, é possível compreender como os sentimentos individuais e coletivos se misturam quando o assunto é futebol, principalmente, quando se trata de uma copa do mundo realizada no Brasil, num momento em que a política faz o jogo do oportunismo partidário para ganhar as próximas eleições em outubro. Na política ou no futebol os resultados são imprevisíveis. Ambas as esferas são domínios que no Brasil e não se pode prever com segurança qual a melhor opção, considerando que tanto o futebol quanto a política não tem uma relação direta entre os meios e os fins para se chegar a um resultado que possa reduzir as desigualdades sociais, políticas, econômicas e culturais da sociedade brasileira.

 

Dessa forma, o futebol no Brasil além de ser um esporte, traz no seu contexto uma complexificação dos sentimentos individuais e coletivos, misturando-os. Segundo DAMATTA (1982) também é uma máquina de socialização de pessoas, um sistema altamente complexo de comunicação de valores essenciais e um domínio onde se têm a garantia da continuidade e da permanência cultural e ideológica enquanto grupo inclusivo. Pois, se as formas de governo e a Constituição mudam constantemente, se as universidades, o padrão monetário e os partidos políticos fazem os brasileiros terem muitas dúvidas sobre sua sociedade enquanto nação moderna, aspirante a um lugar ao sol dentro de uma ordem mundial, futebol, carnaval e as relações pessoais dizem que a sociedade brasileira é grande, criativa e generosa.

 

Finalmente, tanto no futebol como na "vida real", os homens e as mulheres estão relacionados em times e (famílias), e isso vale para o modo de ser da política brasileira, que em objetivo final, só pretendem vencer e atuam com certo “estilo” para que isso se concretize. Contudo, não podem controlar as ações da equipe adversária, nem sua habilidade, ou as coincidências, os erros e os acertos que decorrem do próprio jogo seja ele num estádio, nas manifestações sociais nas ruas ou no parlamento. Mesmo quando uma equipe apela para meios “mágicos” de vitória - o que é muito comum no futebol brasileiro e na política, em todos os escalões, a vitória pode ser situada no plano do favorável ou da imprevisibilidade, mas nunca da certeza. E sem dúvida, é essa complexidade que permite tomar o jogo de futebol como uma metáfora da própria vida.

 

Fátima Barreto – Graduanda do curso de Ciências Sociais da UNEB – 13/06/2014

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