Para Nicinha
A maior vergonha para qualquer escritor é ser apresentado como membro de uma academia de letras. Quando meu avô estava para morrer, ele me revelou um segredo. Disse que seu verdadeiro sonho era me ver vestido num fardão, fazendo discurso numa academia de letras. “De Ilhéus ou de Jequié, seja lá qual for, mas numa academia de letras!” Eu entendi meu pobre avô, ele havia nascido quase no século XIX, faltou pouco para ele ser contemporâneo de Olavo Bilac. Não faria parte da mesma roda do príncipe do poeta, porque se nascesse na exata mesma época, teria sido escravo.
Disse para ele que esse era um sonho muito bonito (meu avô era gracioso e fino, não podia ser tão rude com ele), mas não era pra mim, por dois motivos. Primeiro, nunca quis ser escritor, tornei-me professor de literatura, porque era a maneira de estar numa distância segura dessa classe perigosa. Segundo, que eu tinha um problema de rinite alérgica crônica, o fardão é uma fantasia de feltro, alguma coisa parecida com veludo ou camurça. Seja lá o que for, aquilo sempre acumulava pó e ácaro. Espirro convulsivamente, só de me imaginarvestido num fardão.
Vou explicar melhor o primeiro motivo, porque o segundo, nem os próprios médicos conseguem fazê-lo. Antes da explicação, um parêntese.
(Já está virando tema frequente, nos textos que publico, a academia de letras. Já mencionei a academia também num texto sobre Monteiro Lobato. Um engraçadinho já me disse, num comentário, que eu bem gostaria de estar numa academia de letras. Chamou-me de ressentido, invejoso, ou coisa parecida, e imaginava porque eu não estava nesse “templo da intelectualidade...” - deixou as reticências, o peralta. Certamente, ele não via talento, não via garbo de escritor em mim, nem inteligência. Eu admiti mesmo ser invejoso e ressentido, e que um dia teria pelo menos um soneto dedicado a minha pessoa. Seria uma pequena ironia, nessa vida, a flor vermelha sobre meu túmulo. Tenho amigos sonetistas, vai ser fácil pedir isso. De resto, eu vivo às gargalhadas. Eu bato na academia de letras, porque é “cachorro morto”, não vai me morder. Nenhum membro de academia de letras se colocou contra minhas posições e nunca se colocará abertamente. E sabe por quê? Porque, no fundo, todos sabem que estou certo.)
Vamos à explicação. Como professor de literatura, eu posso gozar de certa autoridade, certa aura de respeito e, ao mesmo tempo, de certa distância em relação a essa classe, a de escritor, que, na América Latina, nunca foi flor cheirosa. Minha posição é tática, toda vez que alguém me diz ser escritor ou escritora, que escreve e publica literatura, romance ou poema, eu já olho com desconfiança e me distancio. Meu afastamento faz com que ele ou ela não me ataque, furiosamente, em seguida. As ideias escritas são as mais perigosas, para o bem ou para o mal. Toda ação desastrosa ou redentora, uma guerra ou revolução, tem como origem palavras pintadas no papel. Mas, se o escritor ou a escritora disser que faz parte de uma academia de letras, piora. Minha desconfiança se transforma em certeza, é como se a pessoa já dissesse como ela é e como pensa, numa única frase.
Preconceito meu? Eu até gostaria que fosse, seria mais fácil, nem precisaria escrever um texto. Ficava o dito pelo dito. Mas, é custoso acreditar em alguém que diz pensar o mundo, ou escrever para o mundo, fazendo parte de uma instituição tão arcaica, tão positivista, tão blasé, tão retrógrada, tão fechada dentro de si, como um bueiro, uma cloaca, hermeticamente tapada. A academia de letras é a última trincheira (pobre, lamacenta e precária, como toda trincheira) da cidade escriturária de Angel Rama.
O crítico literário uruguaio, em sua obra La ciudad letrada, identificava vários tipos de cidades constituídas na América Latina, que representavam as formas coloniais de hierarquização e de poder por meio da escrita e da lei real. A escriturária é a cidade mais excludente, que segrega as pessoas pelo domínio da palavra impressa ou pintada, pela arrogância e pela ignorância do uso da língua culta, padrão, só para humilhar e separar as pessoas. A academia de letras surge numa época de imposição da cidade escriturária sobre as demais cidades, a revolucionária e a modernizada, por exemplo. É nesse momento também que surgem os grandes jornais e os escritores de literatura. A cidade escriturária é um espécie de estado de sítio, onde aqueles que detém a escrita prendem, matam e execram as outras pessoas, em nome da lei e da “boa cultura”. E a academia de Letras é o clubinho dos carrascos. Eu fico arrepiado, morrendo de medo, quando vou a conhecida academia de letras da Bahia, em Salvador. Passeio pelos seus salões, com pinturas dos seus membros ilustres (médicos, advogados, coronéis do início do século XX) gente rica, que escreveu teses e tornara-se “doutora”, inferiorizando negros e mulheres.
A ignorância dos que usam a escrita para separar vem de longe. Patricia Seed, historiadora americana, em seu livro Cerimônias de Posse na Conquista Europeia do Novo Mundo, registra que os espanhóis colonizadores acreditavam, ingenuamente, que lendo um decreto, escrito pelo rei, toda a população indígena iria se submeter ao julgo da coroa espanhola. Todo escritor ingênuo, acredita que sua escrita tem algum tipo de poder mágico sobre as pessoas, de dominação e de docilização.
Muitos já caíram no canto da sereia e se filiaram a uma academia de Letras na Bahia, tenho colegas, amigos, inclusive, escritores que respeito e aprecio muito, nessa situação. Ferreira Gullar, o último escritor do século XX, segundo alguns, vive se esquivando dos convites da ABL do Rio e quase escorregou na boca de lobo. Na última vez, recebeu ligações de amigos acadêmicos, chorosos, ele aceitou, mas desistiu no outro dia. Num depoimento, publicado no Terra ("Ferreira Gullar: A Academia não corresponde ao que eu sou" por Cláudio Leal), o autor do “Poema sujo” revela:
"Fui consultado por alguns amigos meus da Academia, perguntando se eu aceitaria me candidatar, desde que um número muito grande de acadêmicos me enviasse um documento pedindo que me candidatasse. Diante disso, me senti constrangido de dizer não. (...) Quando acordei, me senti muito mal porque aquilo não correspondia ao que sou. Não quero entrar para a Academia. Então, eu acordei: 'Estou fazendo uma coisa contra o que eu sou'. Liguei para os amigos e desfiz. Nunca pretendi entrar para a Academia (…) Não sou uma pessoa com espírito acadêmico, com espírito institucional. Sou um questionador, não me sinto bem em instituições. Concordei com uma proposta muito generosa. Se eu dissesse 'não' ali, eu ia me sentir arrogante, pretensioso".
Gullar sabe bem que a ABL do Rio (a brasileira, a oficial) é um antro de toda sorte de conservadorismo, bajulação, politicalha e falta de criatividade. Toda academia de letras na Bahia, a de Salvador e a desses interiores mais obscuros do Nordeste e do Brasil, é um refugo disso.
Particularmente eu sinto as Academias de Letras tão distantes das pessoas. É como se fosse um universo paralelo. Onde as pessoas em raríssimas exceções descem dos seus pedestais.
ResponderExcluirA Academia Brasileira de Letras e qualquer outra academia não possuem credibilidade para se impor a quem quer que seja, não passam de um monte de vaidosos arrogantes que pensam ser detentores de uma verdade suprema e inquestionável. E a gota d'água deu-se no episódio deplorável que ocorreu em 2011, quando a ABL concedeu a Ronaldinho Gaúcho uma medalha.
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