Cleber Pereira
Ao passo que adentramos na famosa ilha de Florianópolis em Santa Catarina, percebemos o movimento único e evidenciado que marca o racismo, aparentemente disfarçado na sociedade brasileira. A cidade com ar de burguesia, caracterizava-se pelo seu visual europeu, marcada pelo aspecto de limpeza, colocando-nos imediatamente em contato com um frio intenso e desconfortável pelo inverno vigoroso. Os sujeitos claramente divididos em classe, onde não visualizamos inicialmente pessoas negras, apesar de ser a referência do evento, ocupava um espaço distante e a margem dessa sociedade, contudo, a periferia mostrava o lugar de destaque onde a maioria dos negros se inseriam: nos altos morros da cidade.
O VII Congresso Copene, tinha o jeito negro, o discurso negro e o ideal revolucionário negro, com a participação de figuras marcadamente batidas no seio da sociedade como a ilustre Ministra da Secretaria de Políticas de Promoção para Igualdade Racial – SEPPIR, Luiza Bairros e o grande intelectual Kabengele Munanga professor titular na Universidade de São Paulo dentre outros mestres, doutores de diversas graduações e temáticas, estados, países e línguas.
A presença baiana foi ouvida e sentida na presença de sua delegação ativa e participativa. Devo recordar aqui, a aula no pátio com grande Jorge Conceição da UNIRAAM – Universidade da Reconstrução Ancestral Amorosa, que fora das convenções de maneira mais informal, nos mostrou um pouco sobre a intenção em sua mesa redonda que tratava do racismo e questões urbanas, tendo como referencial um dos colegas de curso, que nos mostrou seu trabalho sobre desconstruções através dos contos populares sobre entidades como Saci-Pererê, a Cuca, e o Boi da Cara Preta, muito instruído.
Os dias de frio seguiram-se mostrando a efervescência do discurso dessa grande conferência, rica no contexto atual, com abordagens importantes sobre a questão racial, que teve como um dos expoentes o professor Munanga, que após as homenagens aos nossos negros de luta, apresentou como exemplos o próprio Abdias do Nascimento, Vicente do Espírito Santo e Lélia Gonzáles. Entre apresentações de trabalhos e monitoria das atividades na sala de imprensa, nos seminários e nas mesas, além de atividades culturais e os contatos feitos com professores, estudantes e profissionais da área, ainda sobrando tempo para as coisas do coração que foram arrebatadoras.
Dediquei tempo para uma reunião da SEPPIR – Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade e Racial, participando do debate pontual sobre as políticas de ações afirmativas no Instituto Rio Branco, que incentiva a educação continuada de estudantes afro-descendentes, custeando seus estudos, concedendo bolsas, além da capacitação específica para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, com respostas interessantes e elucidativas do representante do Governo o Segundo Secretário Márcio Rebouças, que apontou para construção conjunta dentro dos limites do Itamaraty, Instituto Rio Branco e SEPPIR na manutenção e fortalecimento dessas políticas de ações afirmativas projeto pioneiro no Brasil.
A programação foi extensa, mas tivemos outros mestres, doutores, pós-doutores, pesquisadores que no conjunto ratificou este congresso como as conferencias das irmãs Costarriquenhas Campbell no auditório da ASSESC, dentre outras coisas que não foram compartilhadas na programação.
Não poderia faltar neste breve relato, as visitas aos pontos turísticos desta capital brasileira, com suas lindas praias que se tornaram o berço dos surfistas nacionais e internacionais. O centro da cidade revela o desejo de toda capital de camuflar as desigualdades com uma maior confluência do povo, daqueles que pegam ônibus em terminal coletivo. Seu transito é bem estruturado, mas que devido ao quantitativo populacional é passível de observação os transtornos ocasionados como na maioria dos grandes centros urbanos.
A universidade vivencia também uma greve nacional vista através de suas faixas reivindicatórias. As praças fomentam um interesse em de bem-estar comunitário, pelo menos nos bairros da classe média, a partir das academias públicas e os aparelhos aeróbicos, mas a desigualdade esta no elevado, onde encontramos uma população de semelhante afastamento como acontece em demais capitais do Brasil, mas, que também é esta comunidade de luta, sobrevivência e cultura onde o samba e a escola de samba forjam os militantes étnico-raciais em defesa da igualdade numa cidade de referencial preponderantemente branco. O que abre o ponto de crítica construtiva para uma próxima edição deste importante espaço de discussão das questões raciais.
Finalmente, a inclusão das comunidades de resistência deve ser lembrada com o intento de ressignificar a construção da identidade mesmo que estas não coadunem com a academia. Os negros já têm batalhas demais no processo de exclusão e precisam estar cada vez mais inseridos em todos os espaços de interlocução. Por conseguinte ainda mesmo que com criticas, pois a imperfeição é característica daquilo que é produzido por seres humanos, homens e mulheres negras tem um importante instrumento para continuar à luta antirracista nas diversas esferas da sociedade capitalista no século XXI.
POR: Cleber Pereira – Graduando em Ciências Sociais da UNEB – Universidade do Estado da Bahia
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