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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SOBRE CORDAS, PATROCINIOS,CARNAVAL, ESTRUTURA DE CLASSES EM SALVADOR E OUTROS TEMAS LEVES.........(SEXTA DE CARNAVAL, 2013)

Javier Alfaya


Apartemos a demagogia e a superficialidade de análise. Mantenhamos a raiva justa contra os absurdos que se misturam com o brilho do carnaval .......

Lembremos o Olodum, o Ylê, o Alerta Geral (vi ontem, primeiro dia, quinta, no Campo Grande), o" Samba e Amor " (de Nelson Rufino), o Alvorada , etc, etc, etc, TODOS tem corda ......vamos pensar melhor nisso ....como garantir (pagar) músicos, aluguel de trio, estruturas outras, abadás, etc., sem cobrar? mesmo dos blocos-afro mais conhecidos aos menos conhecidos querem (e precisam !) cobrar para cobrir custos e remunerar seus artistas, trabalhadores, fornecedores, etc..Surge a questão ...quem pagaria tudo isso?...o estado? a prefeitura? a união? ..é possível? seria correto?  E se nos anos que se seguem o numero de blocos de todo tipo for crescendo? quem pagaria isso? haveria limitação? quantidade pré definida? Botemos blocos e trios na rua que o orçamento publico garante tudo!!! Onde existe isso? Que delírio carnavalesco é esse? Vamos pensar melhor .

Vamos lá: o carnaval gera uma economia no âmbito do popular, além de noutros círculos, óbvio. Gera um processo de circulação de algum (mas fundamental ) ganho financeiro nos bairros de trabalhadores assalariados, para os biscateiros, semi-empregados, essa esmagadora maioria que não mora nos circuitos atuais da folia. Essa é a maioria negra, ou branca mas que de tão pobre é negra ou quase negra (música HAITÍ de Gil e Caetano em “Tropicália 40 anos” , genial !) Mesmo para segmentos de maior renda assalariada, o problema que se coloca, é como reorganizar o carnaval para que a grande maioria que trabalha para a festa seja melhor remunerada. Seja ela mulata, negra, branca, ou de qualquer classificação que se queira. A festa mais participativa e mais democrática da cidade depois da Lavagem do Bonfim, precisa ser mais democrática financeiramente falando para seus criadores populares, suas organizações correspondentes, seus compositores e todo tipo de profissional da área ou não que garante que existe esse grande fenômeno. Eis a questão. Isso implica em debater (e mudar) a grade de desfile (horário), direito de arena (imagem na tv), captação de maiores subsídios, etc,etc,  para os que por alguma razão não conseguem mais recursos.

A corda surge aí, porque uma senhora (conversei com algumas professoras na quinta feira, abertura do carnaval) não podem pagar algo para desfilar dentro de um espaço com gente fantasiada como elas? Quem lhes pagaria o abadá, o chapéu de palhinha? As professoras a quem me refiro estavam todas em grupo, orgulhosas e alegres aguardando o trio de Nelson Rufino (com cordas), prontas para entrar no asfalto do Campo Grande. Tinham todas mais de 50 anos, seguramente, algumas mais de sessenta, quem lhes garantiria não tomar empurrão? ter os bolsos invadidos por mãos bobas? como fariam para ter um espaço para sambar e não serem só empurradas por uma multidão compacta atrás? Como garantir o espaço? Como garantir um mínimo de conforto? de possibilidade de espraiamento? Surge aí o lance das cordas, que tempo atrás tinham outra função (mais de segurança) para dos foliões relativamente às rodas dos trios e separação do publico em relação aos músicos...umas três décadas para trás....são outros quinhentos ..

A discussão não é cordas ou não cordas, é mais ampla . No Rio de Janeiro os blocos são de percussão e sopro, às centenas, talvez mais de dois ou tres milhares, em muitos bairros, grupos organizados, espontâneos ou não, não há carro de som grande na quantidade de salvador, o custo é baixo, é outro formato. A juventude, os vizinhos, os sambistas de fora das escolas, as escolas miúdas locais desconhecidas, os blocos de percussão, os de sopro, os mistos, os de rock e pop, os pequenos grupos fantasiados, etc. Todo esse universo acontece por diversos motivos, o Rio é um universo artistico-cultural de especial potência, é a cidade mais brasileira e mais para fora do país, além do mais tem quase seis milhões de habitantes, mais investimentos, mais renda espalhada e de uns anos para cá saindo da decadência econômica.... Temos que abordar o assunto com mais vagar e informação. Seguramente o carnaval do Rio tenha voltado a ser o maior do Brasil e pelo viés da diversidade, tudo indica que supera o nosso e o de Recife. Quando a Av. Rio Branco entope, com o MONOBLOCO e agora com PRETA GIL, entre outras dezenas de agremiações, o publico compacto, numa reta de mais de 4 quilômetros (da Candelária ao Aterro) resulta num milhão de pessoas, segundo cálculos de especialistas da Policia Militar e de outras fontes!  Depois opinarei sobre disso. Deixemos o orgulho regionalista e bairrista de lado, isso vale para todo mundo, de carioca,  paulista, recifense, olindense, soteropolitano, de qualquer canto deste país que cada vez mais tem mais carnavais ... outro fenômeno a levar em conta. Vejamos o carnaval de Ouro Preto, Manaus, São Luis , Aracajú , Fortaleza, do interior do Brasil , de Brasília (sim existe e é muito criativo e participativo..), das cidades interioranas baianas e de outras paragens ......é um fenômeno cultural, comportamental, mercadológico, artístico em franco processo de expansão.

Voltemos a nossa Bahia ,voltando a Salvador .Quem bancaria a estrutura que historicamente se criou aqui ?
A maior democratização e diversificação do carnaval ( não concordo que seja antidemocrático no nível que alguns argumentam ), vai se dar por outros caminhos .

A renovação estética e valorização da criação artística mais radical e ousada, a valorização da cultura negra(...mas não só!!!.) , a remuneração justa dos que trabalham, etc, é uma pauta possível de ser abordada e resolvida, mas para tal tem que tirar algumas falsas verdades do caminho, e deixar o asfalto livre para a alegria, a franqueza de argumentos, o resguardo do interesse publico e assim conseguirmos os saltos de qualidade que o carnaval de Salvador precisa. Axé ! Bom carnaval !!
 
 
Texto de Javier Alfaya - foi vereador e deputado estadual do PC do B (transcrito do Facebook) 

3 comentários:

  1. Muito interessante o texto, bem incorpado, só que o cara foi vereador, deputado,e não me lembro de ver um projeto nesse sentido,como os 43 que estão agora na camara. A questão do carnaval,é sociológica e Politica. Sem vontade e ação política nunca vai se resolver.

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  2. A massa a grande massa que participa do carnaval está anestesiada há muito.
    Essa sim deveria se posicionar e agir a ponto de fazer com que as vontades política e econômica façam algo dentro deste debate proposto por Javier. Porque se vier de cima pra baixo vai continuar no mesmo, apesar de muita boa vontade de muitos.

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